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Mulheres que amam demais

Amar pode ter um apelo irresistível e poético, nossa sociedade de diversas formas, reforça a idéia de que o amor justifica qualquer esforço sobre tudo para a mulher, assim em nome da família, dos filhos, dos pais no importa de quem ela pode viver anos a fio suportando humilhações, desprezos e indiferenças aceitas como um traço da personalidade do outro esperando que um dia os demais mudem e ela possa ser compreendida e feliz.
O amor pode ser vivido também de uma forma desequilibrada e nada romântica afetando as partes e criando magoas, ressentimentos e desvios de diversa ordem.
A psicanalista mineira Regina Teixeira Costa, comenta em recente artigo no jornal Estado de Minas (28-6-06)
“É interessante diferenciar amor de máxima doação incondicional, nos pedem tudo e quanto mais damos mais nos será pedido... Ninguém sabe nem pode satisfazer o outro sempre.”
A mulher costuma abrir mão de si pela felicidade alheia, na convicção de que está no caminho certo ou de que será recompensada com o reconhecimento, é um erro que costuma trazer infelicidade e equívocos para todos. Quando damos mais do que podemos nos sentimos explorados e exaustos e pode ser uma vivência devastadora, se espera uma troca justa que nem sempre acontece, “deu porque quis” pode dizer alguém e nisso o outro não se sente devedor.
Precisamos exageradamente do olhar e da aprovação dos demais para saber que existimos e toleramos situações de desrespeito e indiferença.
Maureem Murdock no livro “Ser Mulher uma Viagem Heróica” 1 menciona que as mulheres vivem num estado de expectativa permanente na tensão de que algo que está fora delas poderá salva-la, assim a serenidade e o bem estar nunca está no pressente, senão num futuro que não sempre se concretiza: quando eu casar.. Quando tiver filhos etc. Como nos contos de fadas, alguma coisa que sempre esta postergada será possível se o outro aparece na minha vida.
Nesta época de computadores, salas de bate papo e encontros virtuais, temos assistido uma realidade pouco glamourosa de desencontros afetivos e relacionamentos que se transformam em fonte de reserva, precauções manipulações, abusos e jogos de poder.
Escutamos reiteradamente as mulheres falarem que vivem vínculos afetivos com parceiros imaturos, indiferentes, dependente do álcool ou drogas, incapazes de construir um relacionamento.
A pergunta é porque nos apegamos a essas situações e nos custa tanto terminar com esses circuitos de sofrimento?

Tenho um parceiro desses, minha vida está parada, quase não consigo trabalhar, mas a vida dele continua que vou fazer quando ele for embora? (participação de ouvinte)
É evidente que podemos amar contra nos mesmos e falar sim quando na verdade queremos dizer não. Apegamos-nos a situações difíceis por muitas razões: medo a solidão, baixa autoestima, não acreditamos que possamos merecer consideração ou respeito etc. Neste tipo de situação a vida pessoal fica em suspense porque toda a energia esta no outro, se abandonam os projetos pessoais e os propósitos de vida.
Este vínculo é como uma mola, ele têm duas partes, ‘mulheres que amam demais e homens que amam de menos ‘ elas não acreditam nem confiam em quem são, eles por diversos motivos, sobre tudo de educação na sua infância e relacionamentos com suas pró pias mães desenvolvem uma raiva contida e um sentimento de vingança em relação a figura feminina traduzido em críticas, distanciamento, frieza, controle e ar de superioridade. Romper este tipo de relação exige um esforço de consciência e determinação lembrando as palavras do Dalai Lama “O amor não é um sentimento é uma disciplina”.

Quando comecei a namorar meu marido ele bebia e eu sabia, depois se tornou um alcoólatra. Fiquei nessa relação 12 anos, tenho dois filhos, hoje tento ser outra pessoa (participação de ouvinte).
A historia e a literatura nos mostra versões de heroínas românticas que acabaram com suas vidas em nome do amor: Camille Claudel enlouqueceu de amor por Rodin sendo uma escultora de talento. Frida Kahlo era uma pintora reconhecida e vivia o tumulto da sua relação com Diego Riveira e seria possível citar muitos exemplos.
Amar de maneira autodestrutiva não é uma síndrome reconhecida pela psicopatologia mas foi a terapeuta Robim Norwood com seu famoso livro “ Mulheres que Amam Demais”2 que trouxe a questão como um fenômeno do mundo contemporâneo, este tipo de conduta se caracteriza por uma imaturidade e idealização dos relacionamentos que não permite discriminar, se perde a perspectiva e a liberdade, ficando prisioneira de aquilo que foi escolhido.
Existe uma dificuldade em acreditar nas pró pias percepções, em reconhece-las como verdadeiras e dar-lhes importância, vários terapeutas mencionam neste tipo de perfil pessoal de transtornos da infância e padrões adquiridos de medo e desconfiança. Para a socióloga Patricia Delahaie, autora do livro “Amores que nos fazem Mal “ 3 Os pais são decisivos porque eles estruturam a visão de vida conjugal que os filhos irão a ter.

Estou casado á 26 anos e amo minha mulher, mas ela é sempre distante: e quando são os homens que amam demais? (participação de ouvinte).
Em qualquer caso se trata de um desequilíbrio nos relacionamentos, é evidente que os parceiros se transformam e as relações também sofrem vicissitudes e oscilações, não mudamos o outro, mas no transcurso dos anos existe como nas teorias da física uma alteração dos materiais.
Uma parceria de muito tempo é uma construção a dois e ela se modifica naquilo que é o propósito dos parceiros, é imprescindível saber que expectativas temos , que esperamos de um vinculo maduro e que projetos podemos conciliar.
O psicólogo paulista Vicente Parizi, professor da USP de São Paulo diz que a interdependência forma parte dos relacionamentos, mas que o que nos interessa e o grau em que ela ocorre. As coisas começam a sair do eixo quando desloco para o outro o centro da vida, ou espero que ele me traga a felicidade e seja responsável pela minha existência.
Em relacionamentos longos é preciso equilibrar a aceitação e o respeito, não confundindo com domínio ou intenção de controlar o outro.

Meus pais têm um relacionamento dos antigos, de 35 anos de casados, é um exemplo para todos os filhos, mas fico pensando quando um deles faltar, que vai ser do outro? (participação de ouvinte).
Falamos relacionamentos antigos porque na época atual os vínculos estão marcados pela eventualidade e transitoriedade, em tempos de ganância sempre estamos com muitos parceiros, sempre on-line para o que possa aparecer se ficamos com um perdemos o resto e não deixa de ser significativo que o livro “dormindo com o Inimigo” de Roberto Galdkorn 4 tenha sido um sucesso de vendas.
A construção de uma relação duradoura de respeito e tolerância é um trabalho e não uma sorte ou um regalo da vida, uma dedicação das partes envolvidas que exige renuncias esforços e conciliações. É preciso lembramos do que a poetisa mineira Adélia Prado escreve em relação ao tema : “Eu quero um amor feinho...amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial, o que brilha nos olhos é o que é..”

Conclusões: é evidente a dificuldade nos laços afetivos e a facilidade em vincular se a situações de abuso e desrespeito, existe uma impossibilidade de entender estas situações como o resultado de escolhas pessoais e elas aparecem como efeito da má sorte, influência dos demais, circunstâncias alheias a vontade etc.
Estes vínculos não são entendidos como uma atitude pessoal, decorrente de transtornos familiares ou vivências traumáticas que demandem uma ajuda especializada, não obstante em alguns casos quando os relacionamentos mal sucedidos se repetem começa a existir uma indagação importante no sentido de se reconhecer e nomear como o responsável de essas situações repetitivas de fracasso.
Se faz necessário um trabalho educativo e de esclarecimento para discriminar os vínculos como uma conduta que não está submetida ao destino, Deus ou alguma força que esta fora das escolhas do sujeito e das determinações da sua liberdade individual.

1- Murdock, Maureem. “Ser Mujer um Viaje Heróico”. Madri: Gaia, 1999
2- Norwood, Robim. ”Mulheres que amam Demais”.São Paulo:ARX,2005
3- Delahaie, Patricia. “Amores que nos Fazem Mal”. São Paulo: Larousse do Brasil: 2005
4- Golgkorn,Roberto.Dormindo Com o Inimigo como escapar da Tirania dos Relacionamentos.São Paulo:Bertrand Brasil,2005