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Reflexões sobre a Historia Ancestral da Mulher

“No começo era a mãe, o verbo veio muito depois...” Rose Marie Muraro.
Sabemos hoje que os animais não se reúnem em torno de um macho dominante. As pesquisas nos mostram que os grupos sempre foram matricêntricos ou matrilocais quer dizer reunidos em torno da mãe, seguindo uma linhagem feminina.
Nunca deve haber existido nem entre animais nem humanos, uma organização matriarcal porque matriarcal, por analogia a patriarcal seria uma organização governada por mulheres e isso a história não registra.
As sociedades matricêntricas ou matrilocais não apresentam vínculos fechados entre seus membros ( isso será posteriormente um traço patriarcal) e as relações macho fêmea são esporádicas ou casuais.
Os sociobiólogos reconhecem o grupo mãe –filho como a unidade nuclear universal das espécies mamíferas.
O matricentrismo é essencial entre os animais de maior porte porque seus filhos nascem indefesos, assim são agrupamentos cooperativos e não competitivos.
Em quase todas as sociedades de animais as fêmeas são as residentes permanentes e os machos são móveis, elas então exercem um certo domínio que não têm nada a ver com repressão ou coerção, é uma presença mais permanente, uma certa dominância.
Animais próximos da espécie humana como os chimpanzés e os gorilas matem os filhos próximos da mãe até aproximadamente os 14 anos, todas as fêmeas podem ser mães substitutas, elas tomam a iniciativa sexual, evitando machos violentos.
E importante ressaltar que comportamentos não violentos na sexualidade são o padrão na maioria das espécies onde o estupro e quase inexistente.
A Idéia que temos do homem das cavernas como agressivo é errada ,os hominídeos eram cooperativos, as mães cuidavam e alimentavam os filhos e os machos se agregavam ao grupo.Este período de uns quatro milhões de anos atrás até uns cento e trinta mil anos parece ter sido pacífico de cooperação e proteção dos recém nascidos, se estes habitantes tivessem sido agressivos não teriam sobrevivido.
Para os sociobiólogos sucesso em termos de evolução é sucesso reprodutivo.
Foram as mulheres que descobriram à arte de plantar e coletar, assim se podem produzir alimentos em pequenos espaços de terra, a caça de animais trará outras transformações.
Na sociedades horticultoras simples se planta com instrumentos,se caça, se coleta e é possível que começase a existir algum excedente de alimentos, ainda assim eram estruturas onde se mantinham os matricentrismos.
Em Catal Huyuck a cidade mais antiga da Europa que nossas descobertas registram não existiam muros de defesa e as mulheres eram enterradas com espelhos e jóias mostrando seu papel importante.
Muitos antropólogos sustentam que a patrilineridade ou patrilocalidade ou seja o embrião do patriarcado aparece quando é preciso competir pelos alimentos, estudos nos mostram que o patriarcado como sistema violento e hierárquico se instalou de forma gradual e lenta, no começo as mulheres se responsabilizavam não somente pelos filhos senão pelo grupo inteiro.
Sabemos que entre as causas do patriarcado foi decisiva a descoberta do papel do homem na reprodução, um fenômeno histórico muito recente de uns deis mil anos, esta descoberta inaugura o controle da fecundidade, da sexualidade e do corpo de mulher concretizado em diversos tabus e interdições como o da menstruação, da nudez e do parto.
O patriarcado irá transformar os laços de relacionamento sobre tudo entre mãe e filho,por exemplo os rituais de iniciação dos jovens guerreiros etc. onde eles entre outras coisas rompem com o mundo feminino.
Nas sociedades pastoris temos um sistema centralizado e hierárquico, onde os valores não são a generosidade senão aumentar o rebanho e preservar a herança, se instala uma nítida divisão sexual do trabalho ,as mulheres continuam cultivando mas os homens controlam os rebanhos a propriedade e o corpo da mulher assim se estabelece uma ordenação claramente patricêntrica embrião da sociedade autoritária patriarcal.
A irrigação, a domesticação de animais darão lugar aos agrupamentos urbanos e as diferenças sociais, as funções da mulher vão claramente se delimitando, ter filhos para ter mais braços para trabalhar , seu trabalho embora imprescindível para a sobrevivência passa a ter valor secundário, plantar, tecer, costurar, criar filhos ,e pequenos animais.
Rose Marie Muraro diz que a partir de aqui a sexualidade da mulher se torna dupla, a esposa com função reprodutiva e a prostituta, ela menciona que será este o embrião da rivalidade entre as mulheres, todas competem por um melhor provedor, que lhes de proteção e orientação.
No mito do Gênese um Deus todo poderoso cria o mundo sozinho, e a mulher é a causa dos males, assim santificamos a dominação do homem pelo homem do homem sobre a mulher e do homem sobre a terra que serão os traços fundamentais do patriarcado.
Em Roma antes do cristianismo a mulher não era reclusa, podia sair e fazer compras mas não tinha participação social nem decisão política, com a corrupção romana aumenta o número de divórcios e a família perde espaço, a decadência de Roma possibilitou a ascensão do cristianismo, os cristãos dos primeiros tempos rompem com os papeis sexuais tradicionais,homens e mulheres celibatários dedicados ao serviço de Deus.
No começo da Idade Média séculos X a XII as mulheres tinham um papel econômico em expansão, os homens estavam sempre guerreando, nos mosteiros as mulheres tinham importância como monjas e abadessas e culturalmente eram muito ativas, no século X uma monja Hroswitha de Gandersheim foi considerada por cinco séculos a única escritora da Europa.
No século XI a reforma gregoriana retira o protagonismo das mulheres que entre os séculos XII e XIII se juntam em comunidades autônomas, as beguinas mulheres leigas e celibatárias que fugiam da dominação patriarcal na igreja.
Aparece o culto a Maria com enorme intensidade a mulher pura e a outra parte a pecadora bruxa parceira do diabo, a repressão se estendeo do século XIV ao século XVIII desaparecem as grandes abadessas Gregório VII implementa a reforma Gregoriana, se instala a inquisição.
Se reprime o saber feminino, se penaliza o saber médico das mulheres, em 1083 Ana Comnena tinha fundado uma escola de medicina em Constantinopla, em 1527 Paracelso pai da moderna medicina queima todos seus escritos afirmando que todo o que sabia tinha aprendido com uma feiticeira.
Se desenvolve o amor cortés, que coloca as mulheres num pedestal idealizado, os cavaleiros morrem por elas heroicamente,era o homem o senhor das iniciativas, as mulheres cabia o silencio, á aceitação a imobilidade.
Entramos na Renascença, novas formas de mercantilismo econômico, a racionalidade da ciência e a domesticidade da mulher, aparece o culto ao amor materno o corpo reprimido e inorgástico, estamos no embrião do capitalismo,para alguns foi preciso destruir violentamente o feminino para construir a máquina de guerra que foi o capitalismo.
Depois da revolução francesa as mulheres constituíram quase a metade da massa operária do século XIX, a mortalidade feminina era escandalosa, elas ganhavam menos e travalhabam muito mais, o sistema industrial se torna uma máquina de escravizar e dominar, em 1848 Marx e Enguel escrevem seu manifesto comunista sem menção específica a situação da mulher, do outro lado do Atlântico nos Estados Unidos aparece a primeira consigna “mulheres do mundo uni-vos” e o primeiro encontro de mulheres da história em Sêneca Falls perto de N.York exatamente em 1848.
Na segunda metade do século XX alguns direitos são conquistados como por exemplo em quase todos os paises as mulheres votam, no Brasil em 1934 conseguido por Bertha Lutz e seu grupo.
Na década dos 50 o modelo não é mais a mulher vitoriana assexuada ( a histérica freudiana),senão a verdadeira dona de casa, a boa mãe, aquela que não se masculiniza, a mulher é estimulada a consumir.
Betty Friedman e a mística feminina, Simone de Bouvoir e o segundo sexo se perguntam pelo espaço e a insatisfação da mulher.
Nos anos 60 as comunidades questionam os valores, a guerra e as formas de vida.
Nos anos 70 as mulheres já instaladas no mercado de trabalho começam a se perguntar pelos seus vínculos afetivos com os homens.
Para Rose Marie Muraro por baixo de essa estrutura competitiva universal, a mulher continua ligada aos antigos valores de solidariedade e de partilha e estas características, embora essenciais para a continuidade da vida são desvalorizadas e não existem no domínio público, mas temos que pensar que estes valores governaram a vida humana por um tempo muito maior que os valores competitivos que são historicamente muito mais recentes.
A entrada da mulher no domínio publico nos traz não só mudanças da estrutura econômica senão questionamento dos vínculos afetivos, assim vamos transformando as fronteiras entre público e privado, razão e emoção, homem e natureza etc.
O cristianismo inicial pretendia uma transformação radical de consciência, um sentido comunitário entre homens e mulheres e uma bem-aventurança sem discrinações.
As sociedades matricêntricas eram livres, marcadas por encontros sexuais eventuais onde o importante era estar ao serviço do grupo, no auge da nossa civilização pos-moderna,globalizada patriarcal e desafiante quem diria ! precisamos re-aprender atitudes tão antigas e elas são femininas!!!

Marisa Sanabria
Psicóloga CRP 04 5350
Mestre em Filosofia

Bibliografia
Muraro,MarieRose.A Mulher no Terceiro Milênio.Rosa dos Tempos,R.J.1993.