marisa

linha

confraria

 

Artigos

Quando chove

Chovia torrencialmente, adorava a chuva, lavava a alma e dava uma sensação de umidade no coração que lembrava sua infância.

Sempre tinha bons pressentimentos quando chovia, alguém distante telefonava, uma notícia inesperada lhe alegrava a vida e o céu escuro e encoberto apaziguava sua inquietação interna.

Não se intimidava para sair e enfrentava o vento, as poças d’água, o cabelo molhado e a blusa colada no corpo, devia ser porque tinha muitos planetas em Câncer que a água lhe resultava encantadora e familiar.

Foi num dia de chuva, quando corria desesperadamente, que aconteceu o que até hoje permanece em sua vida. Tinha muitas coisas para fazer, aulas para dar, orientandas para receber, provas e supervisões para corrigir... Saiu à rua à procura de um táxi.

Impossível naquelas condições, entardecia e no meio do trânsito se jogou na frente de um carro que se aproximava da calçada:

– Até que enfim! – suspirou.
Pôs a mão na maçaneta e sentiu alguém encostando uma mão perto da sua.
– Senhorita, eu vi este táxi primeiro, sou médico e preciso atender a uma emergência – falou, forçando a porta.

Pensou: “Os homens, sempre achando que os assuntos deles são prioridade.”

Enfim, depois de muita discussão debaixo de pingos grossos, entraram juntos no táxi que levaria cada um para seu destino.

Sentados juntos, eles se olharam calmamente, não haviam tido tempo para isso. Foi um impacto, um flechaço, um “clamor de praça de touros”: os cheiros, os sabores, as cores, nunca vira uma tourada, detestava a crueldade com os animais, mas os aficionados falavam que era inebriante e foi assim que se sentiu.

A viagem durou quarenta anos e produziu quatro filhos, nove netos e um construir da vida.

Naquela noite ela já era uma senhora, estava em casa com filhos e netos e sentia que tinha uma dívida de agradecimento com a vida.

Chovia e decidiu sair. Vestiu um xale sobre os ombros e um sapato confortável. Os netos se alvoroçaram:

– Vovó, a senhora não pode sair, é tarde e lá fora está um temporal.

Indiferente, fez de conta que não era com ela.
Quando estava com a mão na maçaneta da porta da rua, sua filha mais velha chegou, tinha o olhar sóbrio e austero do pai e, quando estava zangada com ela, falava em espanhol.

– Mamá, porque quieres salir de casa a esta hora?
Olhou para a filha com o olhar do tempo:
– Como porque, Mariana? Porque es de noche y está lloviendo.

O olhar da filha compreendeu tudo, ambas sorriram e ela saiu a caminhar na noite de chuva... relembrando.

Marisa Sanabria
Psicóloga – c.r.p. 04 5350
Mestre em filosofia U.F.M.G.
msanabria@terra.com.br