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O passar do tempo

“Casaram e viveram felizes para sempre.”
Estava convencida de que os contos terminavam no momento errado, era aí, exatamente no final, quando a verdadeira história começava, na hora do dia-a-dia, do cotidiano, das contas para pagar e da vida para construir. Era essa parte da realidade que a princesinha dos contos ignorava.
Sua amiga argentina, socióloga, prática, realista e objetiva, sempre falava com ela:
– Não se esqueça de que nós, mulheres, temos um “para casa” para fazer.
– O que você quer dizer com isso? Os homens não têm?
– Eles têm sim, mas a vida é mais tolerante com o masculino; você sabe, um homem fracassado ainda pode ser um partido para acompanhar alguém.
– E a mulher?
– Ah! Uma mulher fracassada é uma largada, abandonada, solitária e incompetente, a vida não vai perdoá-la.
– Credo!! Que dureza!
– É sim, as coisas não têm o glamour que você acha, pretende ou quer acreditar. E lembre-se de que, ao chegar à maturidade, nós, mulheres, temos que prestar contas.
Esse diálogo acontecera há muitos anos, porém ela se lembrava dele perfeitamente.
Hoje estavam na maturidade e muitas coisas se haviam transformado: aquilo que era importante para ela, alguns anos atrás, não tinha lugar na sua vida, os interesses mudaram, os propósitos eram outros e a noção de tempo era medida pelos momentos pacíficos desfrutados na companhia das pessoas amadas.
Algumas inquietações, tormentas e rebeldias se apaziguaram e os gestos destemidos e contundentes de outras épocas deram lugar a atitudes mais serenas, equilibradas, conciliadoras e sem rompantes, sem apavoramentos e sem a tragédia que havia sido seu gênero preferido aos 30 anos.
Sabia o que queria, dava poucas explicações e sentia uma enorme liberdade interna para escolher aquilo que era importante, sua vocação, sua determinação e seus propósitos. Era clara, definitiva e tomava decisões sem hesitar.
Sem dúvida, o passar dos anos lhe havia dado uma leveza de bagagem, priorizava o que era essencial e não se atormentava com futilidades ou tentando consertar o que não lhe pertencia ou não tinha mais conserto.
– Cada um de nós tem uma trincheira na vida – assegurava sua amiga. – E nos toca exercer o nosso papel a partir desse lugar.
Era o entardecer de um dia de semana e, entre outros propósitos, estava decidida a trabalhar menos e aproveitar mais os pequenos prazeres de um passeio de fim de tarde e um sorvete de chocolate saboreado com parcimônia, sem se atormentar com as calorias. Não tinha mais paciência!!
O telefone tocou e era sua amiga, com voz afoita:
– Sabe a Susana? Está sendo despejada, não tem nem um centavo, nem casa para morar, temos que fazer alguma coisa.
Sentiu um frio nas costas, Susana havia chegado ao país junto com elas, era chilena e escapara da perseguição do governo. Ela se casara com um homem muito rico, tivera dois filhos e uma vida muito tumultuada; separara-se e tornou-se a casar umas quatro vezes com o mesmo marido e hoje estava sem nada, os filhos na Europa nem tomavam conhecimento da mãe e ela estava se tornando quase uma indigente.
Foram as duas correndo e encontraram a amiga sentada na escada, com uma sacolinha na mão, fumando muito e chorando sem parar.
Rapidamente decidiram que Susana não iria dormir na rua e a levaram para a sua casa, onde tomou banho, vestiu um pijama e as três sentaram-se para conversar.
Era como um filme, uma cena no tempo, haviam chegado quase juntas ao país e hoje, trinta anos depois, estavam outra vez sentadas frente a frente. Contudo o tempo e a vida haviam transcorrido, cada uma com sua trajetória, mas o rosto, os gestos e o corpo revelavam essa caminhada.
– Como foi que aconteceu isto? – lamentava-se Susana. – Vocês podem me explicar? Tive até casa na praia e hoje estou sozinha, meu marido com outra mulher e meus filhos nem ligam para mim...
Preferia não falar, não queria atormentar Susana, que estava sofrendo muito. Mas Alicia, sua amiga argentina, começou a explicar:
– Você não fez seu “para casa”, foi distraída, displicente, descuidada e desrespeitosa com você.
– Fala mais – pediu Susana. – Quero entender.
– Claro, teve tudo e não cuidou de nada, tratou o que ganhou levianamente, como se fosse obrigação da vida lhe dar tudo. Você não soube plantar e quero lembrá-la de uma coisa: plantar é ofício de mulher.
Ficaram as três em silêncio.
– É verdade, Alicia, nunca cuidei das minhas coisas, sou enfermeira e não trabalhei na minha profissão, nem sei onde estão meus documentos, sempre fui infantil, imatura, achando que bastava encontrar um príncipe.
Era uma conversa franca entre mulheres adultas e queria participar.
– Só que a história não acaba quando a gente encontra um príncipe, aí é que começa a tarefa da princesinha e ela é pra valer, ninguém faz para a mulher a parte que é dela.
– Mas eu pensava que estava fazendo certo e olha no que deu, sou uma sem-teto, sem-família, não tenho identidade... É como se hoje eu não soubesse quem sou.
A conversa se estendeu até o amanhecer e foi uma grande reflexão para as três, sobre a vida e a consciência do que é ser mulher e cuidar de si.
Mas tinham que ajudar a Susana, e depois de gestões, solicitações e tentativas, conseguiram que ela se instalasse numa casa que cuidava de mulheres com câncer. Ela poderia trabalhar como enfermeira e teria um lugar para dormir.
Meses depois, visitaram Susana no Lar Santa Teresa, era assim que a casa que albergava mulheres doentes se chamava.
Susana estava muito diferente, trabalhava sem parar, chegou ofegante.
– Que alegria vocês aqui! Eu trabalho muito, dedico-me e tenho o carinho e o reconhecimento destas mulheres, é uma troca.
Conversaram por pouco tempo, pois Susana tinha que trabalhar. Quando se estavam despedindo, ela gritou:
– Alicia, você acha que ainda está em tempo de eu fazer meu “para casa”?
– Sempre é tempo, Susana, quando você sabe o que quer. Agora a princesinha da história é você!

Marisa Sanabria
Psicóloga – c.r.p. 04 5350
Mestre em filosofia U.F.M.G.
msanabria@terra.com.br