marisa

linha

confraria

 

Artigos

Mulher Trabalhadora e estresse

O último trabalho do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de Agosto de 2006 chama: “O Trabalho da Mulher Principal Responsável no Domicilio” seus dados consta no Sistema Nacional de Informações de gênero e foram elaborados em parceria com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão ligado a Presidência da República.

Os dados da pesquisa são bastante expressivos, quase um terço das mulheres que trabalham no país, 29,6% do total responde hoje pelo sustento da casa, assumindo o papel de chefe do domicilio, estas trabalhadoras realizam uma jornada de 39,2% horas semanais, sendo que a jornada média da trabalhadora brasileira é de 38,7% horas semanais.

Sabemos pelas informações obtidas que elas estão inseridas no mercado de trabalho normalmente em condições precárias, se pensamos que desse total que sustentam a casa 19% ganham menos de um salário mínimo.

A participação e maior nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

O número das chefas do lar era: em Agosto de 2000 de 25,6% em Agosto de 2006 29,6%.

Para Luciene Kozovits técnica do IBGE e orientadora da pesquisa, este panorama responde a varias causas, mudanças demográficas, participação das mulheres mais velhas no mercado de trabalho, independência econômica, aceso a educação, Universalização do ensino básico, etc.

Há seis anos atrás as mulheres eram minorias no mercado de trabalho, mas em 2000 elas representavam 44,1% , sendo que a maior participação se dá entre 25 a 49 anos.

A maior parte vive sem o marido ou companheiro, e muitas das que ainda moram com o conjugue ,participa quase integralmente das despesas da família, um dado que nos interessa é que na região Metropolitana de Belo Horizonte encontramos o maior número do pais de mulheres chefes de família 33,1%,as mineiras estão em relação ao salário em quarto lugar com uma media de 769,30 (setes centos e sessenta e nove reais e trinta centavos. )

Todos estes dados são para mostrar as mudanças rápidas e evidentes da participação da mulher na economia e algumas das conseqüências de estas mudanças.

Até pouco tempo atrás o que entendíamos como feminino e masculino era muito bem definido, elas sempre foram vistas como sensível, frágil, intuitiva, sentimental, compreensiva, conciliadora sempre se atribuiu o mérito da tolerância, flexibilidade e justiça. A ele foi dada à imagem de rapidez, praticidade, atividade e força, se transportamos estas qualidades para o mundo laboral embora hoje se valorize a intuição e flexibilidade feminina ainda as organizações preferem trabalhadores assertivos, competitivos e distantes.

A entrada no mercado levou a mulher a incorporar um modelo masculino de produzir em todas as áreas, desde a engenheira até a professora do jardim de infância.

Assim a mulher solicitada por enumeras demandas, familiares, institucionais etc. se tornou vítima do estresse que tem sido considerado o grande vilão da saúde e a qualidade de vida.

Entendemos por estresse uma resposta muito específica do organismo: As glândulas supra renais liberam adrenalina, a freqüência respiratória e o pulso disparam, os sentidos se aguçam o sistema nervoso central permanece em alerta, é uma reação do organismo para se defender de situações de perigo, o problema é que este estado de alerta quando se torna prolongado, a pessoa vive uma situação de estresse permanente com conseqüências graves para a saúde como doenças cardiovasculares, úlceras, etc.

Uma recente pesquisa da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo revela que 91% das mulheres se sentem estressadas, as causas eram varias, ter que sustentar os filhos sozinha, ter que pro bar credibilidade e competência no trabalho, estar sempre alerta para lutar pelo seu lugar etc.

Sou cabeleireira e tenho 48 anos, fui abandonada pelo pai do meu filho quando engravidei com 14 anos, abandonei os estudos e passei a trabalhar, começo as 7 da manhà e termino ás 21 horas,lutei muito e hoje tenho um filho de 28 anos formado. Tenho muito orgulho, mas me sinto muito cansada e com uma doença no coração pelo esforço (Participação de ouvinte).

Algumas liberdades adquiridas pela mulher trouxeram também responsabilidades muito claras e conseqüências de longo alcance, a pílula, a precocidade na iniciação sexual etc. Uma gravidez na adolescência é sem dúvida uma responsabilidade importante para a mãe porque sabemos que os jovens parceiros na maior parte das vezes não se responsabilizam, assim criar um filho sozinha se transforma não somente numa sobrecarga de responsabilidades e trabalho senão num estigma de exclusão social, e abandono acompanhado de sentimentos de ambigüidade e culpa.

As doenças cardiovasculares têm aumentado numa proporção alarmante na mulher, segundo o Instituto do Coração de São Paulo, há 40 anos,em cada dez casos um era feminino. Hoje, a proporção é de três para um.

A pesar de bem sucedida no propósito o desgaste e grande e a saúde se danifica muito nestas situações de chefas de família com conseqüências em alguns casos irrecuperáveis,em geral ás mulheres que têm trabalhado dessa maneira extrema conseguem a partir da media idade e depois dos filhos criados, uma certa estabilidade econômica e social dentro das suas possibilidades e a perspectiva de poder cuidar de si.

Tenho uma história diferente para contar, queria estudar e sem condições trabalhava o dia inteiro, comecei a estudar a noite na idade adulta, casei e quero engravidar mas agora não consigo e vivo desesperada, faço tratamento e não engravido porque tenho endométrio se.(participação de ouvinte)

Para a sociedade Brasileira de endométriose, a vida moderna, a correria, a fadiga e o adiamento da gravidez por causa do trabalho ou a carreira têm aumentado a incidência de esta doença em 20 % nos últimos 5 anos.Ela se caracteriza por um depósito de sangue da menstruação na cavidade pélvica que pode dificultar a gravidez, esta e outras situações criam dilemas que aparentemente seriam individuais, na verdade temos que pensar que se trata de uma situação social e econômica que coloca a mulher

Sempre em encruzilhadas e situações de escolha, entre o trabalho, a maternidade a profissão,parece que para participar do mundo produtivo ou para poder estudar sempre tivesse que deixar alguma coisa para atrás, abandonar um projeto ou postergar uma desição, o estresse de estas vivências se manifesta numa serie de sintomas físicos e doenças que vão se tornando crônicas e é no corpo da mulher que certas contradições sociais se tornam muito evidentes.

A revista Veja de agosto de 2006 é muito claro no seu encarte “O corpo de mulher está mudando” com a entrada no mercado de trabalho e a maior liberdade sexual, o organismo feminino ficou mais exposto a fatores de risco antes não incluídos na lista dos agressores como derrame, infartos, AIDS, endometriose, câncer de útero, miomas etc. Para a Dra.Tânia Santana do hospital Pérola Byington em São Paulo o trabalho e as emoções interferem na saúde feminina e devem ser levados em consideração.

Fiquei viúva com 25 anos, e nunca deixei faltar nada em casa, como não tinha trabalhado antes comecei a pegar serviço como faxineira para sustentar dois filhos, descobriu que as mulheres estão com mais responsabilidade do que os homens que só querem saber de gastar o dinheiro em bebida, tive outros parceiros, mas sempre eu que trabalhava, vivo esgotada.

A mulher assume plenamente a preservação da vida. Para a psicologia assim como para a antropologia a descoberta da agricultura que é uma atividade de manutenção por excelência é uma manifestação feminina; Assim, como menciona Helen Lucke no livro “La via de la Mujer” 1 o masculino foi marcado pela conquista de territórios,o desempenho e a guerra o feminino indeterminado, sustentou a trama da existência.

Esse lugar das chefas de família é exercido sozinha, sem nenhuma parceria nem de conjugue nem das instituições nem da estrutura social, o esgotamento diz respeito a essa solidão e vulnerabilidade o estresse não reside nem nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica dos indivíduos, é um sintoma psicossocial determinado não somente pela sobrecarga de trabalho senão pela vivência de que não podemos controlar, certas circunstâncias, no mundo globalizado temos muito reduzido o espaço individual que nos permite escolher e nos sentimos a mercê de situações que vivemos como impessoais e distantes.

A suposta irresponsabilidade masculina é também um reflexo de uma situação, mas ampla que descarta os indivíduos e trabalhadores que não encaixam ou se adaptam a certo perfil.

Criar filhos e sustentar a família é uma responsabilidade coletiva, quando ela se torna individual é somente uma pessoa é a cabeça da prole o que acontece é um desvio de uma proposta que deveria ser do estado, governos e comunidade, de esta forma não somente a mulher é muito exigida senão que ela aparece como a única responsável no caso de desvios, crianças delinqüentes, drogadas etc.

Todos conhecem a famosa frase: onde está a sua mãe? Curiosamente ninguém pergunta: onde está seu pai, o governo, as instituições em geral que deveriam dar assistência a essa mulher sobrecarregada.

Fiz um teste na empresa que trabalho junto com meu colega homem. Ele foi escolhido por quê? Tínhamos o mesmo tempo de serviço e eu ajudo a sustentar minha família (participação de ouvinte)

Para a Ministra de Políticas para a Mulher Nicéia Freire, a pesar das grandes conquistas das últimas décadas e do aceso ao ensino superior a discriminação ainda é evidente se pensamos que as mulheres recebem em média 70% do salário dos homens, e ao que parece na hora de escolher as organizações preferem trabalhadores.

Esta situação merece uma reflexão ampla no sentido de que as características ditas femininas como certo estilo de gestão, apoio, confiabilidade, e receptividade podem estar incluídos na forma de produzir.

Para o consultor norte americano Tom Peters a mulher não precisa se masculinizar para provar sua eficiência no trabalho porque o traço feminino não somente humaniza o cotidiano ele pode ser igualmente competente e nos leva a refletir que sociedade queremos e que mundo pretendemos construir a longo praço.

É uma discussão ampla que deve incluir a empresa, trabalhadores e trabalhadoras e organismo pertinente, não se trata de ter que escolher um ou outro senão de pensar numa estrutura coletiva justa que inclua respeito e proteção pelo espaço de cada um.

Conclusões: A mulher chefa de família é um fato incontestável e as conseqüências para a saúde das trabalhadoras também são claras. O que fica evidente na participação das ouvintes e que nenhuma pretende voltar atrás nas suas conquistas, parar de trabalhar ou viver numa situação de dependência, a pergunta é saber se é possível participar, produzir e criar filhos de uma forma menos agressiva, competitiva e predatória.

Muitas destas mulheres para se transformar nas chefas do lar fizeram renúncias irreversíveis e o que elas mostram não é um desafio individual senão uma reflexão coletiva sobre o vinculo que temos com a produção, a natureza o dinheiro etc.Um análise que nos envolve a todos e nos questiona sobre a maneira impessoal , cruel e distante que construímos os alicerces de um futuro imediato que nos pertence a todos.

Marisa Sanabria
Psicóloga – c.r.p. 04 5350
Mestre em filosofia U.F.M.G.
msanabria@terra.com.br

1_ Luke,Helen M. La Via de la Mujer. El Despertar del Eterno Feminino. Madri:
EDAF.1