marisa

linha

confraria

 

Artigos

Mídia e Imagem da Mulher

Os meios de comunicação de massa ganharam uma importância muito grande nos últimos tempos a propaganda, os comerciais estão dirigidos a subjetividade captando aquilo que forma parte não somente dos desejos do sujeito senão do imaginário social.
No livro “ O intolerável peso da Feiúra” Joana de Vilhena Novaes 1 afirma que, no nosso cotidiano as imagens passam a constituir por si só a realidade e, o que é pior elas se configuram como nossa identidade.
Assim “a imagem ocupa o lugar do “ser” e a subjetividade fica colada ao produto: um sujeito com “cara de coca cola” “ a loura com formas de Brama”. Ou seja imagens destituídas da sua dimensão de interioridade.
Desta forma a todos nos é transmitido o que é ser um homem bem sucedido, ou uma gostosona desejada, associando a bebida a masculinidade ou o perfume a conquista amorosa etc;o circuito é fechado quando justificamos o uso constante do produto com argumentos racionais.
Na nossa sociedade do espetáculo como menciona Baudrillard 2 a palavra público substitui a palavra povo e á ambição do sujeito e ter visibilidade na cena social.
“Sonhe que faremos o resto”3 é o apelo mediático, homogeneizamos homens e objetos numa imagem ideal de pleno prazer disponível para todos,consumir pode preencher ou tampar o vazio existencial e as inquietações de nossa ambigüidade de sujeitos.
Na contemporaneidade a cultura do consumo têm como desdobramento a cultura da imagem onde tudo é oferecido de forma instantânea, somos seduzidos com a máxima “Podemos tudo agora...”
Esta promessa forma parte do imediatismo onde estão incluídos os ideais de subjetividade.
Toda esta estratégia inclui um rebaixamento da possibilidade reflexiva do pensamento, um gesto narcísico e infantilizado e uma negação da construção do sujeito como um processo de aprendizado complexo.
Potencializamos a imagem e despontencializamos o ser como alguém com capacidades de escolha.
Esta estrutura com força e apelo próprio asume contornos grotescos e sórdidos tratandose da questão do corpo e em especial do corpo da mulher, o mundo moderno exibe o físico permanentemente exigindo uma forma perfeita: estruturas duráveis a prova de cansaço, doença e envelhecimento quer dizer as característica que antigamente solicitávamos de uma máquina de lavar por exemplo.
Na palavras de Baudrillard 4 moralizamos o corpo feminino e assim pasamos de uma estética para uma ética onde qualquer desvio como a gordura por exemplo e visto sendo uma desordem psíquica, emocional e sobre tudo como uma transgressão moral .
O corpo se transforma para nos como a Miriam Goldemberg 5 nos lembra num capital simbólico,econômico e social, um projeto a longo prazo e um dos objetos mas cobiçados do capitalismo atual , ele nos remete a um estilo de vida e a possibilidade de pertencer a um grupo de valor superior.
A imagem com vida própria da mulher malhada jovem e perfeita exige dosis monumentais de esforço, investimento e disciplina na mesma proporção em que determina a morte do ego, da autodeterminação e das escolhas pessoais.
Ser bela é aparentemente uma desição individual, toda mulher pode ser super-modelo se assim o desejar, quer dizer o fracasso então esta determinado por uma incapacidade individual, isto instaura um dispositivo de repressão, controle e culpa onde as mulheres atravez de seus corpos são objeto de um mal estar constante, a premissa é: “ser bela é um dever social ” se a mulher não consegue modelar seu corpo muito menos saberá conduzir sua vida;o conteúdo ético culpabilizante, controlador e repressor desta proposta nos ensina que, se somos disciplinados e esforçados, militantes da pastoral do suor teremos o reconhecimento e do olhar do outro e esse é um gesto para o qual todos nos, criaturas da contemporaneidade somos extremamente vulneráveis.
No livro “La Mujer y el Deseo”6 Polly Young-Eisendrath diz que toda mulher quer ser desejada mas este traço não pode ser considerado um aspecto do caráter feminino senão uma dificuldade para o amadurecimento imposto numa estrutura onde se solicita da mulher que dedique seus esforços á agradar os homens em lugar de construir uma subjetividade própria.
Querer ser desejada é um dispositivo que translada o poder e a determinação a uma imagem, para “produzir o efeito desejado” diz a Eisendrath estruturamos uma subjetividade difusa,indefinida e determinada pelos desejos dos demais.
Na história de Lady Ragnell 7 a morte pergunta ao rei Arthur o que quer uma mulher? A resposta será em troca da sua vida, Lady Ragnell sabe a resposta mas ela tem um preço: casar com o rapaz mas bonito da corte, ela é clara, direta e enuncia seu propósito, mas Lady Ragnell é muito feia e isto a desvitaliza e torna grotesca sua determinação.
O poder feminino é a beleza, e o que escutamos sempre nas histórias onde a musa representa a vitalidade e a vida e a bruxa feia simboliza o abandono e a morte.
A musa contemporânea é uma mulher criança anorexica, com olhar infantilizado e vazio e gesto de ter sido abandonada, esta imagem de uma criatura que não é dona de sim e que aparentemente está sempre sob o controle de alguém nos remete a segunda parte da história de Lady Ragnell : ela era uma mulher bonita enfeitiçada pela morte porque não cumpria seus desejos,queria poder escolher e o castigo foi um feitiço para transforma-la numa bruxa feia e solitária que vivia escondida na floresta.
A existência desta protagonista no conto nos leva a uma vivência de mulher profundamente explorada no mundo atual: a vergonha, a inadequação a sensação de não ter lugar.Eisendrath 8 afirma que a vergonha esta associada a um sentimento de ser e nos remete a não existência,ela é devastadora e dá a sensação de vazio.
A compulsão desesperada das mulheres modernas para caber no padrão de imagem que a mídia nos impõe diz respeito á apaziguar o sentimento de vergonha, assim escutamos constantemente : “Tinha vergonha de mostrar meu corpo, meus seios...tinha vergonha de ir a praia etc.
Existe uma articulação que merece nossa atenção: a vergonha, o sentido do ridículo se articula com o desejo constante de ser vista,reconhecida e olhada e é nesse abismo sem fim onde a promessa mediática aparece como salvadora se você estiver sarada,magra,jovem e bonita será percebida sempre,assim uma proposta nunca realizada nos leva a um esforço constante,disciplinado e implacável de ruptura com a subjetividade,a possibilidade de escolha e a responsabilidade de mulher adulta.
Refletimos sobre as palavras da Connie Zweig no livro “Ser Mujer”9 Não é possível responder as exigências que o mundo moderno faz a mulher e ser um adulto saudável ao mesmo tempo.
A beleza feminina é poder, é isso o que a mídia nos anuncia, as magras nos oferecem a ilusão de controle, disciplina e condução da própria vida assim todas as mulheres temos um terçer emprego: permanecer em forma,esta imagem congelada de permanente bem estar e juventude vêm acompanhada de um elenco como um casamento feliz,uma família harmoniosa e um emprego estável,não entrar nos padrões se transforma de forma clara e contundente numa exclusão social e uma impossibilidade simbólica de participar e pertencer e sobre tudo numa vivência de fracasso e infelicidade.
Numa sociedade como a nossa carente de ideologias ou utopias coletivas, fragmentada e desarticulada os projetos individuais adquirem um protagonismo muito importante e nada mais condenável que um individuo que se mostra incapaz de se empenhar num projeto pessoal de boa aparência.
Precisamos a esta altura diferenciar feminino de mulher, a propaganda diz Baudrillard 10 se faz sobre o corpo da mulher.
Jogando com a idéia imaginária de uma sexualidade continua que não se retrai nunca e é essa a qualidade que enunciamos dos produtos essa imagem de mídia acaba sendo uma aderência na subjetividade e na aparência das mulheres.
O feminino nos fala de outro registro, de algo indeterminado que esta referido ao principio de incerteza que não se esgota na mulher nem é uma questão de gênero, o feminino não se captura a pesar dos esforços históricos para controlar o corpo da mulher.
De esta forma diz Baudrillar 11 se ao corpo da mulher se associa a continuidade, o masculino aparece sempre como determinado e com lugar marcado, representante da produção e do progresso mostrado pela ascensão e a verticalidade.
A produção associada ao macho aparece como um movimento que quer tudo tornar visível fazer aparecer, por em evidência trata-se de uma questão de força, de relação de forças um gesto androcêntrico e patriarcal de resultados e hirarquias.
A propaganda como atitude de poder traz as mulheres para o lugar de um domínio de resultados que é masculino as torna visíveis, capturáveis, se perdem os enigmas dos símbolos revelamos o “continente negro” como algo grosseiro e sem glamour.
A propaganda se articula com as idéias de poder e controle com o domínio “androcrâtico” do universo simbólico revelando e abusando uma imagem de mulher fictícia e desvitalizada corpos sem vida interior, sem poesia mulheres pertencentes ao universo acumulativo e previsível.
Neste sentido a propaganda não tem nada a ver com o feminino, porque ele desacomoda o universo acumulativo da produção, se desvia do lugar marcado, não é uma causalidade objetiva, o feminino abre novos sentidos e diversas leituras.
As estruturas patriarcais condenam homens e mulheres a uma aparência única, as formas pré-determinadas como uma expressão de poder, estes hábitos promovem em todos nos o medo a vergonha, a inveja, a rivalidade o isolamento e á amargura.
A mulher bonita do patriarcado é um símbolo de poder hierárquico e seu legado diz respeito ao domínio real e efetivo não somente de aquilo que entendemos por mulher, senão das nossas relações afetivas e das possibilidades de construção de um mundo, mas solidário e menos excludentes, estar magras não é um problema de mulher, é uma questão coletiva e uma indagação social sobre o poder devastador e aniquilante de uma proposta que nos deixa anestesiados em relação a nossa capacidade de pensamento crítico e possibilidade de construir uma existência digna para todos.
Gostaria para terminar de mostrar uma imagem de nudez feminina promovida pela arte.
Goya este artista expressivo que muitos consideram o último gênio do Renascimento foi um homem profundamente crítico, questionador e engajado com seu tempo histórico, do seu caso de amor com a Duquesa de Alba ficamos com uma imagem de mulher profundamente poética e evocadora de um corpo e uma sexualidade livre a maja desnuda é uma mulher que sabe de sim menciona a crítica de arte Fayga Ostrawer 12 sua nudez e sensualidade nos remete a um feminino indeterminado e nos leva a pensar que talvez o universo da arte apareça para nos como o oposto a publicidade ou a propaganda, em um somos prisioneiros sem escolha, no outro somos deslizantes e poderemos ser livres.

Marisa Sanabria
Psicóloga – c.r.p. 04 5350
Mestre em filosofia U.F.M.G.
msanabria@terra.com.br

Notas:

1 – Novaes,de Vilhena,Joana.O intolerável peso da Feiúra.Rio da Janeiro:GaramondUniversitária,2007.p.90
2 –Baudrillar,Jean.A Sociedade de Consumo.São Paulo:Edições 70,1981.In: Novaes,de Vilhena,Joana Op.Cit.p.122
3 – Novaes,de Vilhena,Joana.Op.Cit. p. 78
4 – Baudrillar,Jean.Op.Cit.In:Novaes,de Vilhena,Joana.Op.Cit.p 94
5 – Goldemberg,Miriam.O corpo como capital:estudos sobre gênero,sexualidade e moda na cultura brasileira.São Paulo:Estação das Letras e Cores,2007.p.176
6 – Eisendrath-Young,Polly. La Mujer y el Deseo.Barcelona:Kairós,2000.p.19
7 – Eisendrath-Young,Polly.Op.Cit.p.23
8 – Eisendrath-Young,Polly.Op.Cit.p.25
9 – Zweig,Connie.Ser Mujer.Biblioteca de la Nueva Conciencia.Barcelona:Kairós,2001.p.76
10 –Sanabria,Marisa.Pereira Pena ,Ondina.O feminino segundo Jean Baudrillard.Belo Horizonte:Kriterion,Revista de Filosofia U.F.M.G.,1989.p.191
11- Sanabria,Marisa Pereira Pena,Ondina.Op.Cit.p.192
12 – Ostrower,Fayga.Universos da Arte.Rio de Janeiro:Campus,1983.p.85


Bibliografia:
Goldemberg,Miriam. O corpo como capital:estudos sobre gênero,sexualidade e moda na cultura brasileira.São Paulo:Estação das Letras e Cores,2007
Goldemberg,Miriam.Coroas:corpo envelhecimento,casamento e infidelidade.Rio de Janeiro:Record,2008
Greer,Germaine.La Mujer Completa.Barcelona:Kairós,2000
Eisendrath-Young,Polly.La mujer y el Deseo.Barcelona:Kairós,2000
Moreno,Rachel.A Beleza Impossível mulher,mídia e consumo.São Paulo:Agora,2008
Novaes de Vilhena,Joana. O intolerável peso da Feiúra.Rio de Janeiro:GaramondUniversitária,2007
Ostrower,Fayga.Universos da Arte.Rio de Janeiro:Campus,1983
Sanabria,Marisa Pereira Pena,Ondina.Kriterion,Revista de Filosofia:U.F.M.G.,1989
Sanabria,Marisa.Radio Favela Escuta a Mulher.Belo Horizonte:Armazém de Idéias:2007
Zweig,Connie.Ser Mujer.Biblioteca de la Nueva Conciencia.Barcilona:Kairós,2001