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Mulheres Escritoras

Falavam todas ao mesmo tempo, era um entusiasmo enorme, uma barulheira, uma profusão de cores, perfumes, brincos, colares de pérolas, echarpes... Todas muito arrumadas, elegantes, cuidadosas nos detalhes.

– Como foi de férias?

– Está sabendo da notícia?

– Ninguém lhe contou?

Era uma tarde de encontro entre elas, as mulheres das letras, da criatividade, do talento, da expressão, as senhoras da academia. Aquele lugar especial congregava quem fazia da escrita uma grande vocação.

Sempre pensara que escrever era um gesto feminino, exercido por homens ou por mulheres. Era a construção de uma trama, de um tecido, lembrava bordar, costurar, alinhavar histórias, não perder o fio da meada... As metáforas eram as mesmas quando se falava de escrita ou de bordado. Ali cada uma elaborava sua trama, havia contistas, poetisas, ensaístas, cronistas, mas sobretudo existia o gesto de acreditar na vida. Não é possível criar, produzir e inventar se não estamos conciliados com nossa história, pois com o ódio, a mágoa ou o ressentimento nenhuma obra se concretiza.

Assim os encontros eram especiais: às vezes, para recitar poesia; outras vezes para improvisar contos, para relatar passeios... Era um desfile de espontaneidade e bem-fazer.

Nesse dia, as mulheres estavam muito entusiasmadas, acabaram de ganhar um prêmio, um concurso nacional havia convocado escritores de todas as academias do país para participarem de um concurso singular: o edital pedia aos inscritos que redigissem uma carta de despedida, terminando uma grande história de amor.

Depois de muita discussão, conversa e votação, ficou decidido que duas acadêmicas iriam escrever a carta; os nomes não podiam aparecer e somente seriam aceitos pseudônimos. Então, elas resolveram usar um pseudônimo provocante – “Princesinha Rebelde” – e escrever uma carta de despedida na qual o que estava em questão era a possibilidade de a mulher construir uma vida por si própria com dignidade e respeito, como a melhor forma de se refazer ao fim de um grande amor.

A carta foi lida na presença de todas, algumas não concordaram, questionando o tom um pouco independente e feminista; outras, pelo contrário, pensaram que a carta falava do momento histórico da mulher moderna. Depois de discussões, idas e vindas, a produção foi enviada e inscrita no concurso.

Não sabiam qual era a premiação, porque tudo no concurso era um pouco enigmático, mas fizeram um acordo tácito: o prêmio seria dividido entre todas, ou melhor, pertencia à academia como entidade.

Passado algum tempo, novamente elas estavam reunidas porque haviam recebido a notificação de que “Princesinha Rebelde” era a ganhadora nacional do concurso.

A tarde era de excitação, conversa e alegria, eram mulheres com força e entusiasmo. Escrever, como sempre argumentavam, curava-as de tudo: da tristeza, da dor nas costas, do resfriado e, sobretudo, restituía-as ao território dos seus afetos, ao simbolismo da sua vida, ao entendimento das escolhas pessoais. Era uma tarefa artesanal e terapêutica sem a qual seria muito difícil viver.

A presidenta da academia chegou, fez-se silêncio:

– Neste envelope está a premiação, vou abrir na frente de todas vocês e, em conjunto, vamos resolver como repartiremos o prêmio.

Sabiam, que não era dinheiro, isso estava muito claro no edital, pensaram que seria uma coleção de livros de autores importantes, o que seria muito interessante para o acervo da biblioteca. Porém a surpresa foi enorme quando descobriram que a premiação era um passeio de barco por uma das regiões menos conhecidas da Amazônia.

Foi um silêncio total, uma perplexidade. E agora?

Elas viajavam muito, mas assim, de barco, sem segurança, sem conforto, para descobrir regiões da Amazônia, não era bem o que as entusiasmava.

– Não podemos recusar o prêmio – falou alguém. – Seria muito deselegante.

– Sim, mas quem vai?

– Eu tenho alergia a bicho; mosquito, então, nem pensar!

– É preciso até ser vacinada contra febre amarela – afirmou outra.

Todas conversavam ao mesmo tempo, até que alguém ponderou:

– Temos três dias para responder, vamos nos encontrar depois de amanhã e pedir orientação a Santa Clara, ela é a nossa padroeira. Com certeza, encontraremos uma solução.

No reencontro, foi decidido que, como um gesto de generosidade, devolveriam o prêmio e, junto, doariam uma publicação de cada uma para aumentar a premiação. Assim os organizadores poderiam convocar outro concurso ou entregar o prêmio ao segundo colocado. Elas pensaram que seria uma saída honrosa e a encaminhariam à Academia Brasileira, que era quem assinava o edital.

Não deu tempo!!! O telefone tocou, era o presidente da Academia Brasileira, que falou, entusiasmado:

– Que bom que as escritoras mineiras ganharam o concurso, custamos muito a encontrar um prêmio à altura, a carta de vocês foi tão moderna, tão destemida, imagina!! Tinha que ser algo diferente, não poderia ser uma coleção de livros. Vou enviar todas as condições da viagem e quero avisar que podem ir até quatro pessoas.

– Obrigada, obrigada – agradeceu a presidenta mineira ao telefone. – Estamos aguardando as orientações da viagem.

Impossível recusar...

A viagem foi feita e participaram as duas acadêmicas que redigiram a carta e duas que, solidariamente, dispuseram-se a acompanhá-las. Foi um deslumbramento, passeio pelo Rio Amazonas, flores, frutas, sabores, perfumes, animais selvagens... As senhoras foram tratadas com todo o carinho e deferência.

No dia da reunião, contaram tudo o que haviam vivido. As demais escutaram perplexas e aliviadas, foi um aprendizado. Na vida, como na literatura, os territórios existem para serem desbravados