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O Feminino: Questão de Diferença

Marisa Sanabria*

“Que Vênus eram aquelas? Esculpidas com nádegas e seios enormes pendendo sobre grandes barrigas?

Que figuras foram que percorreram desde os Pirineos até a Sibéria, passando pela França, Tchecoslováquia, Itália e Ucrânia?... Do Paleolítico superior até o início da era patriarcal indo-europeia, à adoração à grande deusa era universal... foram períodos perdidos para a história escrita, nos quais os grupos humanos eram mais igualitários e conectados por vínculos pacíficos...”

Sabemos hoje que existiram berços da civilização muito antigos onde a convivência era solidária, com ausência de destruição e conquista armada, as mulheres eram reconhecidas e os valores de solidariedade tinham grande relevância.

Disciplinas como a Antropologia e a Arqueologia nos falam amplamente destas estruturas. James Mallart, conhecido arqueólogo e pesquisador, investigou em profundidade Çatal Hüyük , uma antiga civilização muitos anos anterior à Suméria próspera, pacífica e adoradora de uma deusa.

O ponto culminante deste tipo de agrupamento foi a Creta Minóica, tecnologicamente desenvolvida com viadutos e calçadas pavimentadas onde as mulheres eram homenageadas como capitães de barco. A este respeito, Nicolas Planton, diretor do Museu de Arqueologia de Creta, menciona: “Todos os aspectos da vida estavam impregnados por uma fé ardente na deusa natureza... amor à paz, horror à tirania e respeito pela lei...”

Estas sociedades utilizavam o princípio de conexão em lugar da organização por hierarquias, uma característica do sistema patriarcal, um modelo de cooperação em oposição à exclusão ou à rivalidade. Estas formações, que usavam como símbolos a lua, a vulva e a borboleta, não conheciam os exércitos nem as fortificações militares e seu modelo de funcionamento era comunitário e próspero.

Não podemos nomeá-las de matriarcado, como nos alerta a antropóloga Riane Eisler: “A verdadeira alternativa ao patriarcado não é o matriarcado, porque este é apenas o outro lado da moeda dominadora, mantendo o princípio de hierarquias”.

O biólogo Humberto Maturana as menciona como culturas matrísticas ou matricêntricas, explicando que na cultura patriarcal o individual e o social se contrapõem, porque o individual se afirma pela negação do outro, a valoração da competência e da luta. Na cultura matrística pré-patriarcal, o social e o individual não se contrapõem porque o individual surge a partir da convivência e da cooperação com os outros .

Marija Gimbutas utiliza o termo “ginocêntrico” para marcar estruturas determinadas claramente pela tolerância, pela partilha e pela receptividade; seus estudos sobre a extinção destas culturas são eloquentes, mostrando as invasões indo-europeias, povos vindos das estepes áridas do norte da Europa dedicados ao saqueio e à guerra.

Desaparecem a cerâmica e as diversas formas de arte, as tumbas mostram robustos esqueletos masculinos e o sacrifício de mulheres e crianças glorificando cenas de matança, saqueios e estupros ao serviço de deuses terrenos que glorificam o poder e veneram a morte .

Assim, em termos de civilização, condenamos ao ostracismo o que a antropologia denomina princípio feminino, aquele que determina estruturas solidárias e harmônicas e valores de cooperação e partilha, condenando-nos a um panorama sangrento de lutas, abusos e crueldades.

A socióloga Jessie Bernard nos alerta para a urgência social de restaurar o que nomeia como qualidades diferenciais femininas em todas as áreas da nossa gestão social, econômica e política, incorporando comportamentos que, até então, considerávamos pouco eficientes e produtivos e que localizávamos somente nas mulheres, como a tolerância, o acolhimento e a ética do cuidado.

Feminino é um adjetivo derivado da palavra femina, que significa mulher, descreve algo que pertence às mulheres, aquilo que tem qualidades ou características que se aplicam a elas, como delicado, amável, etc.

Para determinar o feminino, é imprescindível diferenciar: mulher, gênero e arquétipo. Os órgãos sexuais determinam o que é homem e o que é mulher com suas capacidades reprodutivas e definem um gênero como uma classe, ou agrupamento de indivíduos, uma categoria com traços comuns.

Arquétipo, segundo Jung , seriam imagens primordiais, representações inconscientes dotadas de uma energia própria que podem fornecer interpretações significativas no sentido simbólico, criando mitos, filosofias ou religiões e que influenciam e caracterizam nações e épocas inteiras.

Assim o feminino não se refere aos órgãos sexuais nem se esgota nas referências arquetípicas, ele está vinculado a uma estrutura de consciência, o que quer dizer que pode ser vivido sem se identificar com o masculino como uma forma de funcionar, não precisa atuar de forma reativa para se defender e não tem que compensar alguma coisa que lhe falta para poder existir. São estes os traços e os posicionamentos característicos que as mulheres ocupam na estrutura social para poder determinar o seu lugar.

“Quando me refiro ao feminino, não estou falando de um princípio materno... a consciência feminina significa mergulhar nesse enraizamento e reconhecer quem é você... Tem a ver com o afeto e a capacidade de receber e com entregar-se ao seu próprio destino com total consciência de forças e limitações...”

Esta definição da Marion Woodman nos fala da lucidez de consciência que insistimos em não escutar por causa de uma atividade febril, dos vícios, do sexo, dos artifícios do mundo moderno e da nossa identificação integral com o aspecto patriarcal, guerreiro, eficiente, desumanizado e tecnológico da nossa cultura.

Camuflamos o ritmo lento da vida e, nós, tanto homens como mulheres, não entregamos, não desaceleramos, controlamos tudo o tempo inteiro, insistimos em procurar a perfeição, adoecemos e vivemos uma angustiada situação de vida.

O patriarcado, como forma social, localiza o macho como cabeça da tribo, organizando uma particular convivência institucional e uma política marcada pelo individualismo feroz, a luta pelo domínio e o desprezo pelos interesses coletivos.

A mulher contemporânea se tem conectado amplamente com o aspecto masculino da cultura, lutando e reproduzindo relações de poder e submissão. O mundo ocidental e sua glorificação da razão, da objetividade e da separatividade descartam o subjetivo e as vivências vitais nas quais reconhecemos quem somos; assim, dentro de cada um de nós, reproduzimos o gesto civilizatório que oprimiu o feminino na história.

O psicólogo Robert Stein ilustra muito bem esta situação, mencionando Apolo como um deus distante e sem envolvimento, interessado na claridade, na ordem e na moderação; ele personifica o espírito patriarcal e a tendência ao afastamento.

O impulso feminino, diz Stein, é dionisíaco e Dionísio era um deus venerado pelas mulheres na Grécia, seu mundo era o mistério e os poderes da terra, personificava a proximidade, a união e o contacto com os demais.

Nosso mundo é apolíneo e sem emoção, organizado a partir de estruturas conduzidas por uma inteligência diretiva; desta forma, teremos êxito se somos despersonalizados e distantes, condenando o feminino dionisíaco à sombra, a uma segunda categoria sem rendimento, sem reconhecimento e, sobretudo, sem lucro ou ganhos específicos.
Não há no feminino nada inquisitório, cortante ou dominador (no sentido patriarcal) . Pelo contrário, ele nos remete à receptividade, nutrição e solidez; aparentemente submisso, ele respeita e venera o mistério, mas na nossa cultura esta atitude não dá resultados palpáveis. Assim, homens e mulheres, nós somos convocados para funcionar e sermos produtivos.

Nosso comando patriarcal interno nos faz sentir a todos, sobretudo as mulheres, envergonhados, inadequados e frágeis quando não nos identificamos com a eficiência no funcionamento. Assistimos constantemente a mulheres irritadiças, doentes e com um entristecimento severo como pano de fundo da sua existência.

Nossa estrutura contemporânea, não conhece a alegria, que nada tem que ver com o consumo imediato. Somos uma civilização sem enigmas, tudo pode ser revelado, traduzido, entendido, decifrado e reproduzido. Marion Woodman nos diz que, em estado de vício e de submissão, não podemos saber quem somos ou quais são os nossos propósitos.
Vitimamos o feminino dentro de nós e vivemos freneticamente aderidos ao plano material de propósitos acumuláveis. Pensar esta questão nos leva ao desafio de entender outras formas de convivência, assim como a saída de um ego individual triunfante como único fator de domínio, trata-se de uma outra maneira de conduzir nossos relacionamentos que nos desidentifique com o modo patriarcal.

A história sempre nos mostrou o feminino como um gesto de submissão, passividade, ineficiência e medo, localizado em atitudes de mulher. Hoje este traço aparece como uma opção à tirania da modernidade, porque exige uma consciência de vontade própria, uma liberdade para abandonar padrões e modelos impostos e uma proposta de conexão e convivência mais solidária e pacífica em oposição clara à ordem hierárquica patriarcal.

Jane Wheelwright, em seu trabalho “La ruptura de la identificación com el animus para encontrar lo femenino” , fala-nos de um “biológico feminino” como um centro de consciência individual que se opõe radicalmente àquilo que a sociedade espera de uma mulher, como, por exemplo, ser a rainha do lar, a mãe dedicada ou a sedutora estimuladora de desejos. Este centro feminino é um espaço de produção e criação em qualquer área, intelectual, artística e emocional, uma expressão de liberdade e de escolhas pessoais. Assim, quando pensamos o feminino, deixamos de entendê-lo como um adjetivo agregado, como o mundo patriarcal nos fez entender, para torná-lo um substantivo que nos leva a adotar uma outra ordem para os relacionamentos, as formas de trabalhar e de dar sentido à vida, seguindo um padrão não determinado, um estilo próprio que responda a uma demanda pessoal e não a uma necessidade de aceitação, inclusão ou de reconhecimento institucional.

O mundo contemporâneo masculinizou a mulher para resolver as desigualdades que, na prática, não foram solucionadas. Para a advogada carioca Rosiska Darcy de Oliveira , não soubemos negociar o mundo privado e público e continuamos funcionando na cadência das máquinas do século XIX, em que existia uma dedicação exclusiva ao mundo doméstico.

A luta pelas igualdades escondeu algumas diferenças cruciais e as mulheres permaneceram com várias jornadas laborais e sobrecarregadas, hoje entendemos que o que deveria ter sido explicitado era a distinção entre possibilidades e direitos civis.
A profa. Vitória Camps , da Universidade de Valencia, diz que duvidamos de que os valores ditos femininos, como cooperação, responsabilidade ou afeto, sejam eficientes ou decisivos em um mundo caracterizado pela prepotência e pela indiferença. Na nossa sociedade, o tempo dedicado à família e à educação é considerado reprodutivo e ele se opõe ao tempo produtivo e público.

O dilema que se coloca para as mulheres entre público e privado, ou entre cuidar de seu filho ou ocupar um cargo em uma empresa, é uma situação que camufla a falta de compromisso do masculino, como se sua responsabilidade fosse exclusivamente o funcionamento do âmbito público, evitando ou desviando-se das solicitações do espaço privado onde se encontram o que alguns sociólogos chamam de valores suaves.

Transladamos para a vida íntima o modelo da vida pública, mas não soubemos levar para o público os traços de cuidado ou tolerância do mundo privado.

É preciso feminizar o coletivo, quer dizer, construir uma nova ética e um novo paradigma de consciência, modificando a forma de fazer política, de considerar os espaços sociais e a cidadania, para poder exercer o que a profa. Vitória Camps define como uma cidadania diferenciada, o princípio que se conhece como discriminação positiva pensada para favorecer os excluídos.

“Aquel femenino de las igualdades se prolonga en el femenino de las diferencias.”

Não se trata de recuperar um gesto nostálgico ou de cultivar a caricatura do eterno feminino, mas de uma vivência sem hierarquias e de uma proposta sem ambiguidades. A palavra tão vigente hoje, de que o privado é político, leva-nos a refletir sobre qual é a medida do feminino, porque o preço para participar de ambos os mundos, público e privado, é uma conta que até o momento as mulheres pagaram sozinhas.

Inclusive, esta contradição foi sentida duramente no corpo, com doenças, desvios e entristecimentos.
“Para ser respeitada, pense, aja e trabalhe como um homem, mas, para ser amada, continue sendo mulher.”

As próprias mulheres, ou seja, nós ficamos convencidas de que somente existiam um modelo e uma forma de funcionar, o masculino, e que as tarefas privadas eram sem valor, nunca tiveram reconhecimento nem expressão de mudança. A doçura não altera a bolsa de valores e, assim, adotamos um modelo unilateral, hegemônico, perverso e sufocante.

O discurso patriarcal sempre teve uma definição muito precisa do que considerava uma mulher normal, mas a entrada das mulheres no mundo da produção e do trabalho tornou complexa e dilacerou esta definição.

Hoje algumas teóricas do tema feminino afirmam claramente que não é possível ser um adulto saudável emocionalmente e caber nas definições patriarcais do que é a mulher ideal.

A psicóloga June Singer nos fala da síndrome da mulher de êxito , o temor de ser bem-sucedida, a escolha de carreiras ditas femininas e de como conciliar uma proposta de projeto pessoal com uma definição ancestral de mulher feminina, aquela dedicada ao sacrifício e ao bem-estar dos demais. Como Rosiska nos lembra, nossa civilização fez uma estranha conta de somar: feminino mais masculino é igual a masculino.

Para os homens, o êxito reforça a sua autoestima; mas, para as mulheres, pode tornar-se fonte de angústia, incerteza, rejeição e abandono, pois tudo leva a pensar que estamos diante de um dilema inconciliável.

Rose Marie Muraro, no livro A Mulher no terceiro Milênio , menciona que a ideia que temos do homem das cavernas como agressivo é errada, os hominídeos eram cooperativos, as mães cuidavam e alimentavam os filhos, tendo uma presença mais permanente e uma certa dominância que nada tinham que ver com repressão ou coerção. Os machos se agregavam ao grupo e as relações macho/fêmea eram esporádicas. Este período, de uns quatro milhões de anos atrás, parece ter sido pacífico, de cooperação e proteção porque era a única forma de sobrevivência.
Para Rose Marie Muraro, por baixo da nossa estrutura social competitiva, continuamos ligados aos valores ditos femininos de solidariedade e de partilha, temos que pensar que estas atitudes governaram a vida humana por um tempo muito maior que os valores hierárquicos e excludentes que são historicamente muito mais recentes.

Redefinir o conceito de feminino, determinar e escolher com que parâmetros vamos conviver não é um problema de mulher, é um desafio e um questionamento coletivo que diz respeito à sobrevivência e à condição humana.
Este propósito de escolher entre o público e o privado, o reprodutivo e o produtivo, a hierarquia ou a conexão, a luta ou a solidariedade é um dilema que até agora se localizou no corpo da mulher, em questão de gênero, em sintoma de senhoras.

Pensar o feminino é uma análise das diversas estruturas sociais, educativas, jurídicas e laborais; o princípio de conexão não é somente para as mulheres, é um novo entendimento para todos, uma contraordem institucional, uma perspectiva subversiva de modificar as tradições dominantes.

No auge da nossa civilização pós-moderna, globalizada e desafiante, no esplendor do gesto patriarcal e dos abusos de poder, precisamos aprender atitudes que “os primitivos” conheciam tão bem, como o cuidado com os mais débeis. Essas atitudes são antigas, eram exercidas pelas mulheres e tinham como função manter e sustentar a trama da vida, eram “elas” que teciam, plantavam, armazenavam; e estes gestos davam um sentido à existência e traziam consciência para o lugar que cada um ocupava no coletivo.

É essa nova ética do cuidado e da pacificação que precisamos retomar.

“As mulheres não são as únicas guardiãs do feminino. Tanto homens como mulheres estão buscando aquela parte que nos foi expurgada... O feminino não se interessa em estar no topo, dedica-se a perambular... quando estamos no controle de tudo, exercemos uma masculinidade movida a poder...”, é o que afirma Marion Woodman .

* Psicóloga CRP 04-5350. Mestre em Filosofia – UFMG

Referências

CAMPBELL, Joseph. Todos os Nomes da Deusa. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2000.
CAMPS, Victória. El siglo de las Mujeres. Madrid: Ediciones Cátedra Universitat de Valéncia, 2003.
GIMBUTAS, Marija. Los Dioses y las Diosas de la Vieja Europa del 7000 al 3.500 a.C. Madrid,1985.
JUNG, Gustav Carl. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1964.
MURARO, Rose Marie. A Mulher no Terceiro Milênio. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1995.
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Elogio da diferença, o feminino emergente. São Paulo: Brasiliense, 1999.
RIANE, Eisler. El Cáliz y la Espada – .Nuestra história, nuestro futuro. 10. ed. Santiago de Chile: Cuatro Vientos, 2006.
WOODMAN, Marion. A Feminilidade Consciente. São Paulo: Paulus, 2003.
ZWEIG, Connie (Org.). Ser Mujer. Biblioteca de la Nueva Consciencia. 4. ed. Barcelona: Kairós, 2001.