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Desvelando o corpo da mulher: resgate da auto-estima e da autoconfiança

Célia de Freitas *
Geralda Martelo

São inúmeras as histórias de mulheres que se redescobrem e se reencontram após percorrerem longas jornadas de dor, alheias de suas potencialidades e repletas de limitações. Libertar-se deste casulo e despertar para a vida e a beleza que ela traz consigo é uma tarefa muito possível, tarefa esta que pede como condição para se realizar uma boa dose de coragem, uma pitada de boa vontade, um pouquinho de humildade para admitirmos que precisamos uns dos outros e uma boa porção de fé.

Esta é uma receita simples de poucos e complexos ingredientes, eu concordo. E é certo que não são ingredientes que se encontram em qualquer prateleira, mas é fato que eles estão bem mais próximos e acessíveis do que imaginamos e, o que é melhor, não dependem de dinheiro, tão pouco da disponibilidade de terceiros, todos esses elementos podem ser encontrados com abundância dentro de nós mesmos.

No entanto, vale lembrar que, de posse dos elementos necessários à alquimia do milagre que transforma a vida, ele terá mais chances de acontecer diante da tríade composta pela presença Divina, representada por Deus, o Ser que precisa de cura e um Outro ser, que pode ser ou não um curandeiro ou curador. Este terceiro é o que testemunha, o que lhe possibilita a conexão com o Criador por meio do gesto humilde de reconhecer que não somos absolutos em nós mesmos, que precisamos uns dos outros. Este terceiro também cresce no desabrochar das questões alheias, seja pela missão de ser canal, seja pela grandeza do desejo de servir ao outro, seja de que forma for.

E é nesta perspectiva de partilha, amorosidade e cura, com vistas ao resgate do feminino que habita cada mulher, que abrimos este capítulo para partilhar a trajetória de uma mulher guerreira, ex-alcoólatra, extremamente masculina no seu jeito de vestir e agir, casada, mãe de muitos filhos, desconhecedora da existência do prazer sexual e da sua potencialidade e força como mulher. Para preservarmos esta personagem da vida real, daremos a ela o nome de Beatriz.

Beatriz nos relata que o primeiro passo para o seu encontro consigo mesma se deu por intermédio do seu esposo, um homem muito sensível. Não raro, os homens costumam apresentar características fortes do feminino, como sensibilidade, senso de organização e presteza. Características essas que nós, mulheres contemporâneas, ainda marcadas fortemente pelo enredo patriarcal, insistimos em ignorar ou até mesmo desprezar, sucumbindo e sufocando de forma machista e masculina estes sinais que, para muitos, são atribuídos aos “maricas”, “mulherzinhas”, “frouxos” e outros pejorativos mais. Não nos damos conta de que, ao ignorarmos estas qualidades tão naturais, estamos sublimando também em nós estas possibilidades de expressão, sem outro caminho, cedendo espaço a um masculino doente. Afinal, todo ser, independentemente de gênero, deve conter estes dois polos, masculino e feminino, em equilíbrio dentro de si.

Acordar para as características femininas do esposo possibilitou a Beatriz que as respeitasse, acolhesse e passasse a comungar com elas. Mas todo este trabalho foi parte de um processo que teve início em 2001, quando participou de um encontro de final de semana, denominado Resgatando o Feminino, conduzido pela psicóloga Dra. Gislaine D`Assumpção, um encontro de mulheres de diversas idades, com o propósito de despertarem para a vida e, sobretudo, para si mesmas. Foi neste encontro, após 31 anos de casada, que Beatriz descobriu a sexualidade, despertou para a existência do seu corpo e recobrou a autoestima. “Eu não me olhava no espelho, me colocar nua diante de mim, nem pensar! Eu não sabia o que era ter prazer no casamento”, afirma, emocionada. Foram apenas dois encontros, o suficiente para alavancar uma transformação gigantesca, que crescia e ainda cresce a cada dia.

É incrível como a descoberta do feminino aloja elementos que jamais imaginamos explorar. E a melhor notícia é que o despertar da consciência é irreversível: uma vez desperta, não há como ignorá-la, podemos até bloqueá-la e impedi-la de avançar por limitações diversas. E talvez uma das justificativas mais comuns para esta sabotagem com nossos processos seja a capacidade que temos de nos sentirmos vítimas, de eleger o outro como responsável por nossas alegrias e derrotas.

De fato, ser vítima é um lugar bastante cômodo, mas ainda assim é uma escolha. Logo, se é uma escolha, então, podemos dizer que não há vitimização, pois seja qual for o lugar que o sujeito ocupa, seja de dominado ou dominador, sempre haverá uma escolha, seja de silenciar, negligenciar ou ir para o enfrentamento, que não precisa e nem deve ser físico na medida do possível, pois estamos tratando aqui de posturas. Tomar uma mulher como vítima é infantilizá-la, é definir por ela qual o comportamento correto ela deveria tomar. E isto é o mesmo que assinar sua incapacidade de escolha. Mulheres adultas devem comportar-se como mulheres adultas. Num trocadilho pouco humorado, eu diria: “Aperte o sinto! O piloto é você!”

De acordo com Jean-Paul Sartre (1970), num contexto bem existencialista: “O homem é responsável por aquilo que é.”Não existe mãe, pai, companheiro ou filho capaz de sentir suas dores nem alegrias tanto quanto você. E neste sentido, o encontro com outras mulheres, com propósito bem definido, com amorosidade e cumplicidade, pode ser curador. Pode levar-nos a descobertas incríveis acerca de nós mesmas, à medida que nos permitimos ser quem somos; à medida que partilhamos as dores sem julgamento. Longe do julgamento, podemos ser cúmplices, ganhamos força ao observar que o problema da outra não é só dela, pois ele me acomete também. Silenciar, praticar a escuta amorosa, praticar a irmandade, coisa tão rara em nossos dias. Como é poderoso um Círculo de Mulheres reunidas com o propósito de curar! Trocar experiências, dançar, tecer, cozinhar, sorrir, chorar, brincar... Como é poderosa esta alquimia! Assim como também pode ser forte o poder da mulher que se lança contra outra mulher com o propósito destrutivo, com o olhar da inveja, com a língua afiada da futrica, com os gestos maldosos de desprezo e ameaça.

Ora, e se é verdade que onde há luz, há sombra, com Beatriz não poderia ter sido diferente. Se por um lado sua vida íntima ia sendo curada a partir de encontros com muitas mulheres amorosas, em contrapartida, ao se mostrar uma mulher renovada, com a autoestima elevada e entusiasmada com a vida, a nova mulher que surgia quase foi nocauteada e desprovida de motivação para seguir adiante, por causa de comentários e atitudes de uma única mulher, colega de trabalho. A manifestação do nosso lado sombra pode nos levar a agir de fomra inimaginável, mesmo que de forma inconsciente. Importante, portanto, estar desperta, perceber o movimento do outro e não se deixar levar pelo jogo. Recuar se preciso enfrentar se necessário. Afinal, já comungamos da ideia de que não existe vítimas. Mas existe dentro de cada uma de nós uma sombra. como pode ser forte o poder de destruição de uma mulher em desequilíbrio consigo mesma e com o universo!

Beatriz, que passara a sentir prazer consigo mesma, no exercício do autoconhecimento, no despertar da autoestima, no orgulho pelo corpo que agora lhe pertencia de fato, no prazer sexual com o parceiro e até mesmo no convívio conjugal de cada dia, passara a acordar também para suas potencialidades como conhecedora das ervas e dos “rezos” de benzedeira, queria ir além. Semianalfabeta, sonhava em ser aprendiz do curso de Formação Holística de Base (FHB), pela Universidade da Paz (UNIPAZ/MG). Quase desistiu quando ouviu a colega dizer: “Você?! Estudar?! Vai sonhando! Coitada!”

De acordo com Beatriz, esta foi a frase quase letal que a levou a esmorecer por alguns instantes. Mas já dissemos que o julgamento não nos conduz a nenhum lugar de progresso; em contrapartida, quando estamos em paz conosco, embevecidos de compaixão pelo próximo e em conexão com o universo, este sempre irá conspirar a nosso favor. E como era do seu desejo, de 2003 a 2005, a aprendiz entrou para a turma V da FHB, incentivada por um casal de amigos. Ela, que quase nada escreve, mas que sempre teve excelente memória e um grande gosto pela leitura, agora fazia parte de um grupo de estudos. Estava incluída. Pertencia. E isto é muito significativo para quem sempre sofreu inúmeros preconceitos e exclusões. Ao longo do curso, ganhou conhecimento, respeito e uma vontade ainda maior de seguir. Em 2006, começou a participar dos encontros trimestrais do Círculo de Mulheres, em Ravena-MG, agora conduzido pela terapeuta Fátima Tolentino, trabalho este que acrescentou novos elementos à sua história, foi quando decidiu fazer o curso de Formação de Guardiã de Círculo das Mulheres. E em mais um passo em direção a si mesma, tomou coragem e, pela primeira vez na vida, vestiu saia, passou a usar maquiagem e até adornos como bijuterias, xales e outros enfeites. Uma nova mulher!

Que venha essa nova mulher de dentro de mim
Com olhos felinos felizes e mãos de cetim
Que venha sem medo das sombras
Que rondam o meu coração [...]
[...] Que tenha o cio das corsas
E lute com todas as forças
E conquiste o direito de ser
Uma nova mulher
Livre, livre, livre para o amor
Quero ser assim, quero ser assim
Senhora das minhas vontades e dona de mim!”


Dona de si, das suas escolhas e responsável pelo resultado das escolhas, livre para acertar e errar: é esta coragem que muitas vezes nos falta, é a síndrome da perfeição que adquirimos lá no início da nossa infância, nas histórias infantis, nos contos de fadas. No entanto, crescemos e nos esquecemos de que os contos são só histórias que alguém contou para nos distrair e que a nossa história cabe a nós construirmos, não há fada madrinha, não há vara de condão, tão pouco príncipe encantado. Pessimismo?! Não! Realismo! Vamos acordar, Cinderelas de plantão, a vida nos espera e, às vezes, não é mesmo assim tão fácil não. Mas sempre podemos contar com a parte boa, o reconhecimento do outro e de nós mesmas e experimentar a sensação de que se é capaz.

Dia desses, Beatriz, na sua contenda de benzedeira, já reconhecida pela família e pela comunidade como tal, resolveu receitar para a mãe, que se queixava de dor na coluna, uns ramos de chá para tomar, indicou-lhe também um livro de autocura. Conversaram e Beatriz se foi para voltar na semana seguinte. Que alegria! A mãe estava ótima! E foi logo fazendo o relato: “Olha, não pensa que foi só as ervas que me curaram, foi também o livro que você me trouxe.” E seguiu contando que o que ela sentia mesmo era uma grande dor no coração, dor física mesmo.

Ela descobrira, ao ler o livro, que a dor vinha do rancor que ela guardava de um ente querido da família, era uma raiva antiga do tempo que ainda era moça. Quando a mãe de Beatriz descobriu que era esta a raiz do problema, fez o propósito de perdoar, aliviou o coração e se curou da dor. Choraram juntas, mãe e filha.

A mulher Beatriz, que um dia fora desrespeitada pelo vício alcoólico, pela ignorância e pelo excesso de masculinidade que fazia com que resolvesse tudo no grito e na força, agora compunha uma cena linda de irmandade e amor, um pequeno Círculo de Mulheres reconhecendo mutuamente o valor da outra. O perdão também cura! Mas este é um outro capítulo! Por hora, encerramos este artigo registrando nosso incentivo a tantas Beatrizes espalhadas por este mundo, mulheres naturalmente fortes e capazes. Deem o primeiro passo! Só caminhando, podemos construir uma trajetória. E esta trajetória será infinitamente mais bonita, quanto mais dermos conta de fazermos escolhas conscientes e buscarmos percorrer caminhos mais largos, com a autonomia e a sabedoria de uma mulher adulta.

* Célia de Freitas: comunicóloga, educadora, coaching e responsável pela condução de encontros com mulheres, com foco no feminino. Geralda B. Martelo: benzedeira, apicultora, terapeuta floral, focalizora de trabalho com mulheres. Formação em Fitoterapia, pela Universidade Federal de Viçosa.