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Tecendo fios e encontrado respostas

Em muitos filmes peças de teatro e romances de literatura vemos a imagem de uma mulher que borda, que costura, que tece linhas, que junta retalhos, ou seja, que faz uma narrativa, que conta uma história,que articula uma seqüência.

Penélope tecia durante o dia e desfazia á noite é uma imagem arque típica dessa feminilidade que espera pelo amor e enquanto isso borda e junta fios coloridas nos fazendo acreditar que mulheres esperando homens pacientemente se tornam dignas.

Nora, a protagonista da Sentinela de Lya Luft inaugura uma empresa de tapeçaria chamada Penélope e faz referência a difícil trama do desencontro na construção de tapetes que tanto nos lembra momentos de nossa história. Nora menciona a possibilidade de percorrer outros caminhos e deixar os pontos antigos da tapeçaria construindo outros desenhos e matizes.

Em “Como água para o chocolate” Titã a protagonista da autora Laura Esquivel, atormentada pela culpa de desejar o marido da irmã, decide começar uma colcha para agasalharse do frio e da solidão.

Poderíamos citar inúmeros exemplos onde bordar têm o mesmo efeito da escrita, é uma possibilidade de simbolizar que transforma este gesto em um instrumento curativo e ordenador.

Ao bordar assim como ao contar uma história re-inventamos e produzimos um novo traçado e outro final.

“Bordo para me expressar”...Bordo quando estou nervosa”...”bordo quando brigo com meu marido”...”bordo para me esquecer”...bordo para me lembrar”...bordo para viver”...

E assim que se expressam as mulheres da vila Mariquinha no projeto “ A “memória do bordado”, elas lutavam por uma casa própria, batalhavam pela sua dignidade de mulheres cidadãs e registravam tudo em colchas bordadas que contavam a experiência.

Fazer patchwork ocupava as mulheres para não ter a cabeça vazia e as mantinha entretidas em casa. Era essa a tarefa que os colonos norteamericanos davam as esposas, as quilteras bordavam suas histórias e assim esta atividade ao mesmo tempo em que as domiciliava servia de veículo de expressão e receptáculo de intimidades.

De esta forma bordar adquiria uma eloqüência não programada, se manifestando além do propósito específico.

“Meu pano é meu caderno, minha agulha é meu lápis” assim se expressa dona Maria do grupo de artesãs da Vila Mariquinha trata-se de uma narrativa que articula experiência, imaginação e desejo construindo uma multiplicidade de significações. “O gesto manual de bordar apresenta um registro das marcas da vida”

É o que afirma a professora Vera Casa Nova no livro Texturas : ensaios no capítulo “da topografia á escritura,o gesto de bordar”.

Vera nos lembra com lucidez que o bordado faz florecer uma linguagem que fratura o mundo e o refaz através de signos que indicam o caminho, a temática do bordado se aproxima aos textos de literatura.

Elisa, protagonista do livro “O Penhoar Chinês” retoma o bordado que fazia junto com sua mãe quando esta era viva, Elisa é hoje uma escritora famosa e se aproxima da arca de costura da mãe para pegar nas linhas querendo entender a relação com sua mãe, ela reflete: “Aprendi hoje a manipular palavras e essa tarefa exigiu de min a mesma ciência das bordadeiras... bordar e escrever serve para preencher o vazio..bordar e viajar...”

O bordado se transforma para Raquel Jardim em um livro de recordações, um álbum de fotos velhas e não podemos esquecer que bordar é feminino assim como escrever é feminino.

“As mulheres diz Elisa protagonista do livro, não foi dado durante séculos a possibilidade de escrever..elas traçavam sinais de criação usando linhas enfiadas em finos orifícios, em teares, manipulando pequenos instrumentos, com isso transfiguravam o mundo, escrevendo signos que substituíam palavras ...aprender a bordar é como aprender a escrever...”

A professora Vera nos fala do pano texto onde o sujeito ativo, transitivo, coloca seu trabalho, faz aparecer a voz e coloca num pedaço de pano o desejo.

Desta forma o bordado configura um texto, a linha desenha uma subjetividade que se materializa e remete a uma genealogia feminina, uma história que se re-significa, novos sentidos para o passado, diversos olhares para o futuro.

Na intimidade do gesto, no debruçar da cabeça, na agilidade das mãos o coração se mostra, a emoção se revela o sentido se concretiza,o pano é como uma literatura que nosso olhar percorre, deslizamos a mão é como uma ficção intencional, uma experiência radical de intimidades, a vivência da palavra e a vivência do bordado interagem e se misturam em uma narrativa que encontra sua própria voz.

Cuidado, paciência, ritmo, cadência e disposição, bordar como escrever exige entrega, mundo solitário ou compartido, mas espaço de silêncio e concentração e então se descortinam memórias escondidas, experiências enterradas, sonhos inconfessados e bordar se transforma em um gesto que nos desapega do cotidiano, nos distancia de uma realidade muitas vezes hostil, cruel o indiferente.

Mãos que bordam e escrevem contando histórias, Clarisa Pinkola nos fala que as mãos das mulheres constroem universos no cotidiano, na cozinha, no jardim, nos tecidos e não damos a devida atenção a esse balé dos movimentos, trata-se de um gesto táctil, um retorno a outro tempo, um resgate artesanal, enfim um reciclar da vida.

Marisa Sanabria
Psicóloga CRP 04-5350
Mestre em Filosofia UFMG.


Referências:
Jardim, Raquel. O PenhoarChinês. Rio de Janeiro, Funalfa, 2005.
Casa Nova,Vera. Texturas: ensaios. Belo Horizonte, Fac. Letras U.F.M.G., 2002
Craveiro, Flávia. Escrituras Bordadas. Belo Horizonte, C/arte, 2009.