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Mexendo no vespeiro¹

Simone Francisca de Oliveira2

Quando uma mulher decide publicizar uma situação de violência doméstica, não é incomum, um primeiro momento de descrença, desvalorização ou deslegitimação da sua fala, seja por parte de seus familiares, amigos/as e/ou agentes das instituições públicas de enfrentamento à violência. Estas mulheres vivenciam assim uma situação, no mínimo, dualizada: às vezes, são posicionadas como detentoras de direitos e vítimas de seus companheiros; em outros momentos são as responsáveis pela iniciativa de barrar o ciclo de violência, mas são também desacreditadas e deslegitimadas durante a trajetória de enfrentamento à violência. Apesar de se poder considerar que a sociedade vem se sensibilizando com a questão do enfrentamento à violência doméstica e familiar e com a discussão sobre as performances dos papéis sexuais o que se observa é que a iniciativa das mulheres de mudança e questionamento ainda é rechaçada. Geralmente, a mulher é reforçada em seu processo de enfrentamento ao ciclo de violência, desde que não subverta as normas de heteronormatividade, maternidade, fidelidade e romantismo. Parece que a regra é assim: mude, mas sem mudar muito, subverta, mas não tudo.

Atenta a esta situação me questionei sobre como poderia apresentar uma alternativa de atendimento psicológico diferenciada para esta clientela que aliasse ao aspecto terapêutico a possibilidade de discussão sobre a situação da mulher na sociedade em um espaço de participação coletiva e democrática legitimando assim a agência das mulheres pela luta por seus direitos e por uma vida sem violência. Escolhi adotar a teoria e prática do Grupo Operativo criada por Enrique Pichon-Rivière por entender que o enfrentamento a violência de gênero como uma tarefa a ser realizada em grupo potencializaria os processos de mudança através das negociações e trocas comunicacionais. Desta forma, em 10 de março de 2008, teve início a experiência do Grupo Operativo “Mexendo no vespeiro” ³realizado no Centro de Referência de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência de Contagem/MG- “Espaço Bem-Me-Quero”. O enquadre do Grupo é aberto e de livre participação, ou seja, sem obrigatoriedade de presença ou com número de sessões pré-determinado. Esta forma de organização foi adotada por privilegiarmos a escolha e desejo da mulher em se filiar à proposta e também pelas especificidades da dinâmica própria do enfrentamento à violência, reconhecidamente cíclica. Desta forma, uma mulher pode comparecer ao Grupo por um tempo e se ausentar por outro período sem ser cobrada por sua ausência e sentindo-se livre para retornar sempre que julgar necessário. O nome do Grupo foi apresentado por uma das participantes do Grupo como uma representação do momento em que, apesar de tudo e de todos/as, a mulher resolve sair de uma relação violenta. É uma representação que demonstra os perigos e dificuldades que podem ser encontrados e, ao mesmo tempo, se refere à coragem das mulheres de enfrentar os desafios.

A experiência com este Grupo auxiliou-me na escrita da minha dissertação que teve como objetivo geral investigar o processo de enfrentamento à violência de gênero em um Grupo Operativo e como objeto de estudo o Grupo “Mexendo no vespeiro”. Assim, fui aliando teoria e a prática em minha trajetória profissional e com isto, pude desenvolver uma teorização sobre o enfrentamento à violência de gênero e uma metodologia de atendimento que chamo carinhosamente de “Mexendo no vespeiro”. As linhas mestres deste trabalho são: o acolhimento - das dificuldades, ambiguidades e dúvidas; o respeito- à autodeterminação, ao tempo e história de cada um; o incentivo - à criatividade, à colaboração, à superação, ao novo; a aposta - na aprendizagem e na mudança de vidas, histórias, da sociedade. Todo o processo de escrita e estudo que envolve a execução deste trabalho e a elaboração desta metodologia tem como objetivo contribuir com a discussão teórica sobre a violência de gênero e seu enfrentamento, com a capacitação de outros atores sociais para esta pauta e também com a construção de alternativas para uma clínica guiada pela psicologia social. Venho repassando esta experiência como uma alternativa que se adapta a todas as clientelas e pautas que se guiam, pela mudança e pela aprendizagem. Em suma, por todos e todas que aceitam o convite e o desafio de, apesar dos muros impostos pela sociedade, encontrar fossos e fissuras por onde possamos vislumbrar um mundo novo. Nós do “Mexendo no vespeiro” agradecemos a sua atenção e esperamos que você faça parte desta história. Agora só falta você! Entre em contato!
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¹ Para nossa alegria e orgulho este trabalho foi agraciado com o terceiro lugar no Prêmio Profissional “DEMOCRACIA E CIDADANIA PLENA DAS MULHERES” realizado pelo Conselho Federal de Psicologia, em agosto de 2011.
² Psicóloga e mestre em psicologia social. Psicóloga do “Espaço Bem-Me-Quero” - Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência de Contagem/MG responsável pelo atendimento psicológico individual e em grupo operativo com mulheres sobreviventes à violência de gênero. Supervisora institucional dos estágios curriculares e extracurriculares em psicologia. Consultora em psicologia social e psicóloga clínica (atendimento individual e em grupo). Telefone: 85167442. E-mail: si.fos@hotmail.com- Para maiores informações acessar: .
³ Desde 2008, este Grupo se encontra semanalmente, por um período de uma hora e meia a duas horas, totalizando, até o momento, 140 encontros com uma média de 06 mulheres em cada sessão. Desta forma, já foram atendidas neste grupo, em torno de 120 mulheres.
4 OLIVEIRA, Simone Francisca de. “‘Mexendo no vespeiro’: legitimação dos ciclos de violência de gênero através do grupo operativo.” 2010. 219f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais. OLIVEIRA, 2010.