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Além do Herói - Histórias clássicas de homens em busca da alma

Allan B. Chinen
Summus,S.Paulo 1993

Segundo C.G.Jung o desenvolvimento psíquico e emocional a partir dos quarenta segue padrões específicos e comuns a toda a humanidade. Enquanto na primeira metade da vida o homem luta sem muitas perguntas, agora começa a refletir sobre o sentido dessa luta.E agora? Para onde vou? Já cumpri com as expectativas de meus pais, já me eduquei, já ganhei dinheiro. Qual o significado do que consegui? Qual o significado da vida? Sem pais e sem professores, agora ele tem de se orientar sozinho. Na maioria das vezes, sente-se responsável por muitos e tenta continuar mostrando uma força que já não sente. Não se pode ser herói quando não há batalhas, por outro lado mesmo tentando, não consegue identificar-se com o mito do herói jovem, potente e sedutor.

È também comum, nesta etapa,o homem entrar em profunda depressão, e fingir para si e para os outros que está tudo bem, aqui a crise é somente o primeiro passo de uma nova jornada.

Do que o homem precisa na maturidade?

Na meia–idade a sagacidade, a capacidade de enxergar mais globalmente e a compreensão das fraquezas humanas são algumas das características que levam o homem a seu desenvolvimento mais pleno. Histórias de homens na maturidade descrevem o desmoronamento do ideal heróico e patriarcal, este modelo leva em si uma proposta violenta e um desdém e abuso do universo feminino.

Na história e nas diversas tradições os contos de fadas eram contados por adultos e para adultos e eram levados a sério e até usados em cerimônias de cura e ritos de iniciação, contos de homens são incomuns e relativamente desconhecidos, eles são semelhantes pelo mundo afora, o que indica que eles revelam elementos fundamentais da alma masculina. As histórias de homens retratam o que Robert Bly batizou de “masculino profundo” esta é a parte da psique masculina que normalmente está por trás dos papéis masculinos tradicionais, os ideais heróicos e as ambições patriarcais; os contos de homens dirigem-se também especificamente a homens amadurecidos, que já dominaram os papéis masculinos tradicionais e agora precisam de ajuda para se libertar, estas histórias são para qualquer homen pego depois da morte do herói ou da queda do patriarca, mas antes que apareça seu sucessor, eles são também para as mulheres que convivem com diversos homens na sua volta.

Contudo estes contos não defendem um homens domesticado, delicado, feminino ou dócil, as histórias retratam homens arrebatados pela emoção, que respeitam o feminino e celebram a vitalidade masculina, não se trata de uma invenção da nova Era, pois são histórias que vêm de sociedades tradicionais pelo mundo afora, elas refletem a imagem original da masculinidade.

Além do herói e do patriarca se transmite em estas lendas os arquétipos do caçador, do xamã e do malandro, este último é muito importante e aparece depois do herói na vida dos homens então o malandro é pós-heróico, o masculino profundo também vem antes do herói num sentido histórico, pois o caçador malandro surge na aurora da civilização, muitos milênios antes do rei-guerreiro mas a sociedade patriarcal encobriu e reprimiu o caçador malandro. O caçador, o xamã e o malandro personificam uma intensidade masculina que evita a guerra, honra o feminino e reconhece o equilíbrio da natureza, o malandro oferece um novo modelo saudável para os homens em seus papéis de maridos, pais, amantes, trabalhadores e líderes, enfatiza o saudável e não o heroísmo, a comunicação mais do que a conquista e a investigação mais que a descoberta; e não se dedica a exploração dos outros. As histórias levam a uma masculinidade mais intensa e mais sagrada e, enfim, a uma humanidade mais plena e mais autêntica.

O malandro traz um modelo pouco assimilado pela cultura, ele vive uma perambulação pelo mundo afora que é típica de este arquétipo, como símbolo para a mudança, a transição e a transformação, mas ele não é um eterno jovem, porque estes homens são imaturos e pré heróicos e não conhecem a lealdade, a perseverança ou a dedicação que são virtudes tradicionais do herói patriarca, o nomadismo do malandro se estende a diversos aspectos da sua vida até a sexualidade, seu lado namorador ilustra aspectos dos homens muito lastimados pelas mulheres com aversão a compromissos nos relacionamentos, o malandro se recusa a aceitar limitações ou convenções, é o inverso do patriarca e do herói, quando afirma um ponto de vista, um companheiro, uma família e um território como seus, o malandro atravessa fronteiras e está sempre em busca de novas ligações, no fundo é um explorador e um pioneiro, e sua promiscuidade mina o ideal romântico da tradição heróica.

A doença e a preocupação com a cura e um tema dos homens na meia idade, e um tema pos-heróico, a terapia de qualquer ordem substitui o trunfo que até então era prioritário, por trás de suas brincadeiras e palhaçadas, os malandros são curadores e terapeutas, proporcionando exatamente o que os homens precisam na maturidade. Os homens precisam desconstruir as regras convencionais, tornar-se mais flexíveis e expressivos, menos juízes e patriarcas, o papel do bobo é trazido pelo malandro, que abre o segredo e celebra, não há vergonha em ser um bobo, esta é antes uma oportunidade para divertir-se.

A fraternidade masculina é também um modelo profundamente curador mas é essencial distinguir o “irmão espírito” do camarada guerreiro, a fraternidade dos guerreros é antiga e aparece nos épicos da literatura esta camaradagem é da juventude e acaba na meia–idade, os companheiros de guerra não lidam com as responsabilidades da maturidade, os contos trazem neste momento da vida o irmão espírito um ser fraternal e eventualmente espiritual que acompanha, aconselha, e faz brincadeiras maliciosas, vários autores consideram que a experiência de ter um irmão proporciona aos homens um recurso para atravessar a meia –idade, a fraternidade espiritual e pós heróica, o irmão espírito libera da competição frenética e fratricida dos homens jovens que é estimulada na nossa sociedade onde apenas um pode vencer. O irmão espírito também ajuda as mulheres, aliviando seu papel feminino tradicional, e atribui apoio e intimidade emocional aos homens, que quando maduros encontram ajuda em seus camaradas, não apenas em suas esposas e amantes, assim as mulheres estão livres para seguir suas próprias vidas.

Na meia–idade as convicções e ambições juvenis desmoronam, fazendo-os sentir vulneráveis e carentes, mas o malandro representa uma força de vida masculina, e personifica mais do que a vitalidade sexual o arquétipo do doador de vida social que traz para a humanidade a linguagem do fogo, os remédios e invenções importantes, o seja os dons que possibilitam a vida humana.

A imagem do malandro promete a cura aos homens que estão trilhando “o caminho das cinzas” oferecendo conselhos, camaradagem, renovação e rejuvenescimento e como um terapeuta do sexo masculino, ele é um arquétipo tão antigo como o da Deusa Mãe e representa uma fonte não patriarcal da vitalidade masculina, é uma alternativa ao patriarca e também á Grande Deusa. No folclore, o papel de portador do fogo, da linguagem, dos remédios, e dos alimentos essenciais é tão básico no malandro quanto é sua sexualidade, mas muitos homens se prendem a promiscuidade sexual e jamais atingem o âmago gerador mais profundo da psique masculina mas na meia idade muitos deixam a licenciosidade sexual e começam a apreciar, no malandro sua capacidade geradora mais profunda.

A mochila é uma imagem simbólica porque o roubo é uma característica dos malandros e o fato de realmente furtar reitera o tema da soma zero associado ao malandro, em todas as culturas, os malandros costumam dar a outros o que roubam a generatividade está oculta nos roubos do malandro mas a vida do malandro não é a simples realização de desejos sua mochila representa os recursos para andar e sava-ló na vida sua meta é o conforto e não a conquista algo que os homens pós-heróicos compreenderão.

O jovem herói tende a ser um perfeccionista puritano e procura erradicar completamente o mal. Em compensação, os malandros aceitam as fraquezas humanas, desculpar os erros, riem das falhas e toleram o mal. Personificam um superego mais flexível, contrastante com a moral rígida e idealista dos homens jovens. Há 3 etapas fundamentais nas iniciações dos adolescentes do sexo masculino: a separação, a transição e a reintegração. Na primeira etapa, os meninos são tirados de suas mães, muitas vezes á força, e separados de sua vida infantil. Na segunda, os jovens passam por provas assustadoras, que destroem suas crenças infantis e os lançam em um confuso estado de transição. Nesse momento, os garotos aprendem as tradições secretas de seus pais e ancestrais, em geral seguindo a trilha do herói. Depois de provar que são duros, espertos, fortes e corajosos, os jovens são recebidos como homens entre os homens. Voltam a sociedade na fase final da iniciação a reintegração.

Em algum momento dos anos intermediários da vida, os sonhos, esperanças e ideais juvenis dos homens se desfazem, deixando-os no limbo. O paradigma heróico e patriarcal da juventude é destruído na primeira etapa da iniciação na meia-idade. Os homens nesse momento perambulam, sem rumo e sem objetivo; emerge uma nova figura por meio dos sonhos,fantasias, amizades ou terapias, é o irmão malandro, que lhes oferece conselhos, apoio, esperanças, patrono da estrada aberta, e inimigo dos dogmatismos o malandro ajuda os homens a romper com os hábitos heróicos da sua juventude. Por meio do humor e do escândalo, o malandro incita os homens a explorar novos modos de viver.

Os homens aprendem a curar e a ressuscitar, em vez de batalhar e conquistar; preferem a fraternidade e a igualdade, á hierarquia e á autoridade. A transição do herói e patriarca para o malandro é difícil, já que hoje há poucos ritos formais de passagem para os homens maduros e muitos voltam-se para a terapia.

A vitalidade do malandro é tão antiga é tão antiga e tão importante como a da Grande Deusa, O irmão malandro essencialmente inicia os homens de meia-idade no masculino profundo, esta iniciação não é moderna, ela é uma experiência arquetípica reverenciada por muitas sociedades secretar de homens pelo mundo afora.

Marisa Sanabria
Psicóloga –crp 045350
Mestre em Filosofia UFMG