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Masculinidade Amadurecida

Muitas sociedades aborígenes separam os homens mais velhos e os mais jovens em ordens fraternais distintas. O rito da puberdade masculina é muitas vezes o primeiro de uma série de iniciações, e á medida que os homens amadurecem, vão passando pelos diferentes círculos fraternais. A fraternidade dos jovens são tradicionalmente heróicas e marciais, mas as sociedades dos homens de meia idade não, os círculos dos homens maduros têm como referência o malandro, não o herói.

As fraternidades secretas são importantes por constituírem precedentes á masculinidade madura e proporcionarem modelos práticos para os homens de hoje. Antes de mais nada, essas lojas são pós-heróicas, aceitam apenas homens que já dominaram o modo de vida do herói e do patriarca, os membros das fraternidades de homens maduros são guerreiros ou chefes bem-sucedidos, que renunciam á luta pelo poder e se voltam para atividades espirituais, como, por exemplo, ensinar as tradições tribais aos jovens. As fraternidades demonstram a diferença entre a masculinidade amadurecida e o heroísmo juvenil. As fraternidades maduras abandonam a hierarquia, típica das organizações heróicas e patriarcais, os círculos adotam a camaradagem espiritual do malandro.

As sociedades de homens maduros tradicionalmente fazem coisas escandalosas, tais como romper com os limites sociais. Esse espírito subversivo obriga os homens a questionar determinados pressupostos socialmente estabelecidos e a investigar e explorar novos pontos de vista, na privacidade de seus círculos secretos, os homens maduros tornam-se brincalhões e relaxam;temporariamente libertos das famílias e das responsabilidades tribais, os homens podem ser eles mesmos e experimentar novos papéis.

A trapaça também é importante em outros ritos de fraternidades secretas. Os círculos dos índios norte-americanos, organizados como sociedades de palhaços tribais, conduzem cerimônias tribais para assegurar a boa caçada e campos férteis ou para resolver tensões.

As fraternidades de homens maduros não desapareceram completamente. È o espírito do malandro e não o do patriarca que inspira as festividades. Para outros homens, a iniciação ocorre individualmente e sobre tudo na terapia. A cultura moderna é desprovida de ritos sociais ou fraternidades de homens maduros então a psicoterapia tornou-se um veículo importante para a iniciação dos homens no masculino profundo.

No fim das contas o herói e o patriarca valorizam exageradamente a fama e a glória; assim quando aparecem em sonhos e fantasias, exigem o centro do palco. O malandro prefere se disfarçar e rodear limites exteriores. A questão está em que muitos homens continuam com tarefas heróicas a cumprir e questões não –encerradas da juventude a resolver.

Como pode um homem saber se deve permanecer no caminho do herói ou tomar o do malandro? Seu malandro interior lhe dará algumas dicas e pistas. Se ele segue por muito tempo o modelo do herói, terá uma vida estagnada e estéril, no entanto,quando o homem esta pronto, o malandro emerge em sonhos e fantasias, geralmente de forma inesperada ou chocante.

O xamã é um aspecto importante do masculino amadurecido, um indivívuo é iniciado como xamã quando tem uma experiência visionária em que é cozido vivo, desmembrado ou destruído de alguma forma até restar somente seu esqueleto, também podem acontecer viagens até o inferno ou mundo dos mortos, essas viagens são uma função tradicional dos xamãs, que visitam o mundo subterrâneo e o mundo superior, comunicando-se com demônios e deuses. O bom xamã retorna com uma cura para seu doente; xamãs e malandros podem ser considerados partes do mesmo arquétipo, seus traços retratam os temas dos contos de homens e as grandes tarefas que os homens enfrentam na meia –idade.

Xamãs e malandros são comunicadores e mediadores, mensageiros que ligam a humanidade aos deuses, os vivos aos mortos, a tribo ao espírito dos deuses é uma comunicação muito diferente da do herói –patriarca que usa a comunicação para a conquista e o poder. O xamã-malandro personifica a comunicação masculina, isso e hoje vitalmente importante, porque a comunicação é muitas vezes considerada feminina, trata-se de um modo masculino de comunicação as piadas e as brincadeiras são um modo tipicamente masculino de comunicarse, e as mulheres também devem reconhecer os significados profundos nas ações, brincadeiras e silêncios dos homens.

Por sua capacidade mediadora, o xamã-malandro equilibra opostos e paradoxos, ele é uma massa de contradições, os xamãs guardam muitos opostos e são considerados ao mesmo tempo profundamente sábios e loucamente bobalhões, próximos aos deuses pelo poder de cura e aos demônios pela capacidade de lançar maldições, ao integrar os opostos o xamã diverge do herói-patriarca que escolhe um lado da dualidade e reprime o outro e divide o mundo em masculino e feminino, bem e mal e outros, numa etapa seguinte reivindica para si o lado virtuoso dessa dualidade, negando quaisquer vestígios do lado menos nobre. Na maturidade, os homens devem integrar esses dois lados, transcender as dualidades e manter ao mesmo tempo numerosos pontos de vista conflitantes. Este é um talento que o xamã-malandro se oferece para ensinar.

O fato de xamãs e malandros serem sucessivamente mortos e ressuscitados é bastante simbólico. Ao contrário do herói-patriarca, que nega a dor e o medo e procura manter uma fachada de invencibilidade, o xamã-malandro aceita sua vulnerabilidade e seus ferimentos. O herói-patriarca encara ferimentos e sofrimentos como derrota e humilhação, algo a ser evitado, negado ou reprimido. O xamã-malandro considera os ferimentos como oportunidades para transformação e compreensão –ele zomba do herói “forte e silencioso”.No entanto, o xamã –malandro não é nenhum fracote. Nas culturas aborígenes,os xamãs são indivíduos bastante robustos,que dançam ou tocam tambores por horas a fio para alguns autores estas figuras são flexíveis,criativos,inteligentes e psicologicamente saudáveis. O xamã –malandro reconhece a própria vulnerabilidade e mágoa, permanece duro e forte; é uma combinação de força e fragilidade, vida e morte e representa um novo modelo de masculinidade para os homens que lutam com a vulnerabilidade e a carência na meia-idade,promete ajuda e cura quando os homens tomam o caminho das cinzas, inevitável na meia-idade.

Há uma última polaridade integrada pelo xamã-malandro a individualização versus o bem comum. Os xamãs não se alinham aos dogmas convencionais da religião, o malandro por outro lado, se opõe fortemente ás ortodoxias e é impelido a quebrar regras, aqui o xamã-malandro é o perfeito oposto do herói-patriarca, que insiste em que todos sigam as mesmas regras, aquele que codifica e formaliza leis, como os dez mandamentos. O xamã-malandro despreza as convenções, para sair em busca da sua própria visão interior, trabalha para o bem comum e não apenas em beneficio próprio e dota a humanidade de talentos essenciais para a civilização. Usam seus rituais para curar os doentes, garantir a abundância da caça e assegurar a fertilidade das mulheres; ajudam também a resolver conflitos entre individuas e fazem profecias para ajudar as decisões tribais; lembram duas lições importantes aos homens de meia-idade, insistem em que a experiência privada e o desenvolvimento individual não bastam: os homens devem atuar em suas comunidades procurando o bem comum e não apenas sua própria iluminação.

O patriarca usa o poder como arma para controlar os outros,enquanto o malandro vê o poder como instrumento para ser utilizado por todos; por exemplo, ele trouxe a linguagem à humanidade para que todos pudessem comunicar-se entre si e expressar seus pensamentos, o patriarca usa a linguagem como lei, com a qual reforça seu poder. A imagem do malandro e a de uma estrada em que todos podem trafegar, Exu o malandro africano, e chamado de fazedor de estradas e muitos são chamados de exploradores de trilhas. A mudança é da dominação para a generosidade.

Os paralelos entre xamãs e malandros confirmam que ambos são dois aspectos de um padrão mítico, assim como o herói e o patriarca são duas facetas de um arquétipo, a iniciação dos homens no xamã-malandro só ocorre após sua renúncia ao paradigma heróico-patriarcal. O conceito heróico tradicional descreve o ego combatendo impulsos inaceitáveis,controlando institntos,sublimando desejos e forjando uma identidade própria coerente. O xamã –malandro personifica a negociação e a mediação com o inconsciente, em vez do combate ou da conquista sua meta é a integração, não a dominação. O malandro é sem dúvida um arquétipo pós-heróico.

Sem as iniciações na meia-idade os homens mais velhos permanecem presos a seus papéis heróicos e patriarcais e não abrem caminho para os mais jovens, desse modo, pai e filho, mentor e discípulo, velho e jovem e assim por diante, permanecem lutando por uma posição, quando os pais são iniciados nos mistérios do xamã-malandro, seguem em frente e deixam os filhos seguir a própria vida.

Marisa Sanabria
Psicóloga crp 04-5350
Mestre em Filosofia UFMG