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Pensar em Feminino: O desafio de uma nova ética

Uma ética elaborada a partir do conceito de feminino nos conduz a pensar algumas definições: sempre conhecemos o feminino como um adjetivo aplicado às mulheres como doce, delicado, amável, etc. Nossa proposta não é assimilar o gesto feminino a mulher nem tratá-lo como uma questão de gênero, não tem nada que ver com os arquétipos e os modelos culturais que definem e determinam comportamentos, traços de conduta ou expectativas em relação ao que seria uma mulher.

O feminino como substantivo refere-se a uma lucidez de consciência e a um princípio de conexão, esta definição se opõe ao modelo patriarcal marcado pela hierarquia, a exclusão e o trunfo individual, em oposição aos interesses coletivos.

Assim como mulher, gênero e feminino são diferentes, também devemos distinguir homem, masculino e patriarcal, este último caracterizado como sistema de discriminação e hierarquia.

Sabemos hoje, pela antropologia e os descobrimentos arqueológicos, que existiram civilizações prósperas, pacíficas e solidárias. Humberto Maturana as denomina matrísticas e a antropóloga Marija Guimbutas as define como ginocêntricas, estruturas determinadas pela partilha, pela tolerância e pelo bem comum e que não conheciam as armas nem as fortificações militares.

Vivemos o esplendor do modelo patriarcal, tecnológico, distante e hierárquico e dividimos o mundo em espaço público e privado. No mundo público, exercitamos as virtudes do guerreiro, a produção, a eficiência e o êxito pessoal; no mundo privado, reprodutivo e sem valor, mantemos os laços de afeto, acolhimento e solidariedade, o que as sociólogas inglesas denominam de valores diferenciais femininos.

Masculinizamos o mundo íntimo, mas não feminizamos o mundo público. A professora Victoria Camps, da Universidade de Barcelona, afirma que feminizar o público seria torná-lo mais responsável, pragmático e solidário. Fizemos da mulher um guerreiro armado como uma forma de resolver desigualdades que não foram solucionadas, continuamos na mesma estrutura que determina o adoecimento das mulheres, mostrando que a “medida feminina”, ou seja, o preço de conciliar os dois mundos, público e privado, é um preço que continuamos pagando sozinhas com o adoecimento físico, a angústia, a culpa e o conflito emocional.

A filósofa feminista Victoria Sendón de Leon nos lembra a famosa frase: “O privado é político”. Com isso, afirma que precisamos reformular uma ética na qual o público não seja exercido sobre a indiferença, o desprezo e o massacre do privado.

Não negociamos os espaços de participação e a luta pelas igualdades camufla o mundo doméstico, as várias jornadas laborais e opõe a produção ao tempo entre aspas da “intimidade”. Assim o público tem reconhecimento social e existência, o privado não é reconhecido e não existe. Não registramos, por exemplo, as jornadas laborais dedicadas ao cuidado dos filhos, dos doentes, a administração doméstica, etc. e as mulheres, para ter visibilidade, participam do mundo público incorporando o seu funcionamento.

Para Victoria Camps, um dos aspectos da feminização do coletivo seria a transformação da concepção que temos destes dois espaços, porque a divisão determinou discriminações sociais, econômicas e políticas; seria preciso mudar a ordem e assim organizaríamos o público a partir do privado, transformando a forma de fazer política, de pensar o paradigma do cuidado e a ética do acolhimento.

Carol Guilligam, em sua obra Ética do cuidado, afirma que assim como os homens têm desenvolvido uma normativa da justiça fria e distante, as mulheres sempre têm estado preocupadas com o cuidado e a responsabilidade. Não se trata de renunciar à justiça, mas de entender que ela nem sempre é suficiente em relação à preocupação com os outros.

No lugar da cidadania universal, o que aparece como perspectiva hoje é o conceito de cidadania diferenciada, ou seja, o princípio que conhecemos como discriminação positiva pensada para favorecer os excluídos.

A universalidade dos direitos, das propostas e das leis para todos sempre foi uma abstração; o princípio que diz “Todos os homens...” é uma definição imprecisa, pensada sob o aspecto masculino, e determina a hegemonia plena de um modelo e o trunfo do paradigma da exclusão.

É evidente que nos interessam as igualdades de direitos civis, as condições de trabalho, a justiça econômica, etc., etc., mas devemos ter claro que isso é o ponto de partida e não de chegada. Na verdade, camuflamos as diferenças para instaurar desigualdades de direitos e não reconhecemos singularidades, pluralidades e tudo aquilo que não se encaixa no modelo da certeza, da ordem ou da normalidade.

O sujeito universal e genérico desconhece as diferenças e constrói direitos abstratos, indefinidos e distantes. Nossa perspectiva do feminino como conexão e consciência nos leva a reivindicar direitos substantivos que somente serão possíveis se reconhecemos as diferenças. Um sujeito diferencial feminino refere-se ao bem-estar físico, ao acolhimento e à atenção de indivíduos concretos, porque, quando exercitamos as razões do estado, esquecemos os direitos substantivos do cidadão.

Michael Sandel, em sua publicação O Malestar da Democracia”, nos diz que ninguém se emociona ante as grandes questões universais, falta-nos hoje uma dispersão da soberania, quer dizer, exercitar assuntos próximos dos cidadãos e de seu cotidiano. Neste sentido, a mulher está melhor preparada do que o homem, diz Sandel, para exercer esta política da proximidade, porque ela organiza, administra e sustenta o espaço privado.
Uma representatividade pensada sob a ótica do feminino se fundamenta em uma ética instaurada a partir de uma nova ordem simbólica e dos arquétipos negados pela universalidade. Estamos falando de sujeitos diferenciais, lutando por direitos substantivos e não abstratos.

Não é um problema de mulher ou uma questão de gênero, é um desafio coletivo e precisamos implicar a sociedade em um conflito que até agora as mulheres enfrentaram sozinhas. Uma ética do cuidado nos remete a um novo paradigma do acolhimento e da solidariedade diante da ética da justiça que se pretende imparcial e tem como proposta normatizar a vida de todos.

É preciso prestar atenção a pessoas, grupos ou coletivos específicos nos quais pensar sob a ótica do feminino se objetive em medidas de justiça e atitudes de cuidado.

Voltamos, assim, à questão de que o pessoal é político, devemos transformar valores do âmbito privado em virtudes públicas, porque a justiça excessivamente politizada e indiferente não é suficiente, não existe a solidariedade em abstrato. Somos solidários com situações concretas, e assim a compaixão ou o afeto conectam com a interpelação do outro que precisa ser atendido e não com uma demanda difusa e geral.

Para terminar, gostaria de mencionar que na Grécia os guerreiros cultuavam Apolo, um deus das ideias, da abstração e do distanciamento, enquanto que as mulheres reverenciavam Dionísio, uma divindade da Terra, do êxtase, do mistério e do contato direto com os demais. Precisamos recuperar a sensibilidade Dionisíaca para exercitar uma ética das relações e da proximidade, daquilo que faz parte da história concreta e dos direitos substantivos de cada um de nós.

Marisa Sanabria
Psicóloga CRP 04 5350
Mestre em Filosofia – UFMG

Referências:
Camps,Victoria.El siglo de las Mujeres.Instituto de la Mujer.Madrid,Cátedra,2003.
Gimbutas,Marija.Los Dioses y las Diosas de la Vieja Europa del 7000 al 3.500 ac.Madrid,1985.
Riane,Eisler.El Cáliz y la Espada-Nuestra histórianuestro futuro.Santiago de Chile,Cuatro Vientos,1990
Sendón de Leon,Victoria.Marcar las diferencias.Discursos feministas ante um nuevo siglo.Barcelona,
Icaria,Mas Madera,.2002.