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Masculinidade: um desafio para o século XXI

Há algum tempo tenho sido chamado a falar do lugar de pai, da função paterna, educação de filhos. São demandas que se organizam em torno da minha situação como pai, e em conseqüência de minha atuação política no Conselho de Psicologia. Observo ainda que tenha a ver com ser homem atuando em psicologia, uma profissão exercida principalmente por mulheres. Responder a essas demandas tem exigido que eu organize uma reflexão nesse campo. Isso tem aguçado minha curiosidade e me levado a tematizar o que, em parte, era uma circunstância. Além disso, atender a esse tipo de demanda, me leva a confrontar reflexões e elaborações teóricas, com os exemplos trazidos pelo público desse formato de exposição.

Trabalho como psicólogo clínico em consultório particular há 25 anos, sendo que há 19 atuo também na Saúde Pública. Como professor e supervisor de práticas grupais na universidade, por 14 anos. A lida, nesses diversos âmbitos, tem permitido ampliar minha percepção, do que vivem os homens, na condição masculina. O percebido é objeto de inquietação, pois inclusive diz respeito á minha própria experiência nesses lugares que ocupo na condição masculina.

Percebo que há qualquer coisa de particular acontecendo com os homens nesse momento. Apesar da masculinidade não ser privilégio deles, esse modo de existência é basicamente incorporado pelos homens ao longo da história. Como uma construção cultural, que tem a feminilidade como referência antagônica, certamente tem sido afetada pelas transformações que a questão feminina tem vivido nas últimas décadas. Isto é, certamente o movimento feminista das últimas décadas produziu conseqüências que afetam os homens, e por decorrência a masculinidade.

Observando o que mudou, nos últimos 25 anos posso afirmar com certeza: Os homens têm aparecido com mais freqüência buscando ajuda psicológica. (Não que a atenção da psicologia tenha se tornado uma alternativa, eles têm apenas, aparecido mais). Inclusive, venho percebendo que a queixa dos homens tem se deslocado, vêem falando de novos temas, novos assuntos, em uma posição diferente. São homens que passam a falar de solidão, dificuldade de encontrar uma companheira, sentimentos de iminente perda do que conseguiu; falam do quanto sentem ameaçados por suas esposas, do risco de ser traído, além da insegurança quanto a continuar recebendo os serviços que “sua mulher” lhe presta. Os homens choram no consultório e com freqüência expressam emoção em falar dos filhos. Manifestam certo desamparo, o que faz pensar que eles também falam como filhos da mulher. Aquela que já foi chamada de “a patroa”, “dona Maria”, referida com um certo descuido, se tornaram objeto de suas demandas, inclusive de afeto. É um linguajar novo, estilos e modos que faz pensar que merecem uma atenção particular. Devo dizer que esta é uma observação empírica do espaço da clinica, uma visão panorâmica, mas nada formalizado.

Por outro lado, eventos vêm acontecendo que nos fazem pensar que é bem mais grave o que temos observado que vem ocorrendo com os homens. Há algo de novo acontecendo, nesse momento histórico, em especial no que se refere à violência urbana.

O que acontece hoje na periferia dos grandes centros urbanos está a exigir, para além da intervenção do Estado, uma escuta que possa entender um pouco mais, para orientar uma intervenção. Quero dizer que suspeito, que o que vive –se alí, ultrapassa em muito, a problemas de Segurança Pública, ou Defesa Social, como em geral essa questão da violência é tratada.

A violência que os homens têm produzido na periferia dos grandes centros urbanos vai ecoar na Saúde Pública, e na Saúde Mental em particular. Ali, têm um lugar de expressão, busca de acolhida, algum conforto, e a garantia de estar protegido pelo sigilo profissional.

Penso que o estado conflagrado em que se encontra a periferia dos grandes centros urbanos, em que a juventude masculina, mata e morre, carece de uma abordagem que inclua a perspectiva de gênero, afinal porque só os homens, ou quase, estão imersos nesse circuito de assassinatos cotidianos. Uma investigação que relacione violência e gênero deve trazer subsídios para se compreender o que vem ocorrendo e permitir pensar estratégias de intervenção que possa reverter essa situação anti-civilizatória.

O que me parece seguro, é que de uma maneira geral, no centro ou na periferia, a masculinidade está posta em questão, os homens vivem um momento crucial, no que se refere ao estabelecimento de seu lugar e função entre eles e em relação ao sexo oposto, e isso lhes faz sofrer.

Milton Bicalho
Psicólogo - Graduado em Filosofia – UFMG
Especialista em Filosofia – UFOP
Mestre em Psicologia Social – UFMG
Fundador do Centro de Socioanálise, Instituições e Grupos – CESIG-MG
Equipe e Saúde Mental - Contagem
Fundação Gregorio Baremblitt – Instituto Félix Guattari

Referência Clínica da Clínica Ampliada – Rua Pe. Marinho, 49 / 504 Santa Efigênia – BH - clinicaampliada@gmail.com (31) 32417002