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Menopausa é Tempo de Pausa

“O tempo da aquarela e de magia, de aprender lições que não estão mais nos livros nem nas universidades.
A suavidade é prazer sem explosão, sem urgências, sem voracidade. É degustação, provar cada pedaço da vida, sem engasgar, sem entalar...”

Déa Januzzi – Tons de Aquarela
Jornal Estado de Minas 2007-12-09

O texto da Déa é revelador de um tempo na nossa história marcado por um novo ritmo e por outras cadencias. O Dr. Rudiger Dalhlke no livro “As Crises da Vida como Oportunidade de Desenvolvimento” (Cultrix. SãoPaulo 2005) nos fala de uma pausa,reflexão,entendimento, de avaliação,recolhimento e sobre tudo de reconciliação com nossa história e aquilo que somos hoje.

Vivemos a media idade da forma como conduzimos nossa vida até agora e é difícil pensar numa menopausa serena e produtiva se no nosso tempo de mulheres jovens plantamos relacionamentos infelizes, catástrofes econômicas ou escolhas profissionais equivocadas.

Do ponto de vista médico esta passagem é definida como a parada espontânea da menstruação por um período de 12 meses. Alguns dicionários norte-americanos a mencionam como mudança de vida reconhecendo que se trata de uma alteração decisiva e permanente, ela deve vir acompanhada de uma consciência profunda e de um entendimento drástico de que é um momento de vida diferente dos anteriores, com conseqüências definitivas e transformações de longo alcance.

Não é preciso sofrer no trânsito da menopausa, calores, suores, enxaquecas, irritabilidade são hoje administradas de forma eficiente pela medicina, homeopatia e os diversos recursos que auxiliam a vivenciar os sintomas de uma forma serena e sem desconfortos.

Mas a sociedade ainda encara esta crise com preconceito, dramatizado as manifestações e tratando a mulher como um ser desequilibrado e frágil.
É bom lembrar que a palavra crise é derivada do grego Krineim que significa discernimento e decisão, o simbolismo chinês para a palavra crise é perigo e oportunidade, é um momento que exige lucidez em relação a situação que se esta vivenciando.

No mundo da eficiência e da produção, não poder procriar é percebido como um abandono da função e do espaço social, assim a menopausa é definida pela carência e não como um processo de transformação: carência de capacidade reprodutiva, carência de menstruação, carência de estrogênios quer dizer tudo aquilo que determina uma mulher como participativa, contribuinte e, sobretudo atraente sexualmente.

Nas tribos norte-americanas e em diversos grupos na África, Ásia e Indonésia as pesquisas do antropólogo Richard Lee nos mostram que as mulheres pos-menopáusicas conservam e aumentam seu papel sexual.

A sexualidade da mulher madura é uma complexa resposta psico, físico,emocional que está vinculada não somente ao desempenho do corpo mas a confiança,respeito,segurança,ternura prazer e alegria. Este aspecto será o resultado da relação que tivemos com nosso corpo e da maneira como exercitamos a sexualidade na juventude.

Emocionalmente tratasse de um tempo de profundos insights e de entendimento de algumas escolhas, é um intenso turbilhão que muitas vezes vêm acompanhado de ressentimentos, raivas,medos e frustrações,outras de sensações de alivio e coragem para verbalizar coisas nunca ditas, reivindicar direitos não exercidos ou recuperar sonhos abandonados.

Judy Hall no livro “Vivir la Menopausia com Plenitud (Gaia.Madrid.1996) diz que o mundo ocidental não deixa que a mulher se lamente, mas que neste momento algumas se lamentam de não ter tido um filho, não ter estudado, não ter colocado limites num relacionamento enfim, certas escolhas são irreversíveis mas o importante é não se condenar, entendendo as determinações que nos levaram a tomar decisões na vida assim podemos sair da lamentação e construir perspectivas novas.

É uma travessia, esta palavra se define no Aurélio como longo trecho de caminho ermo, um ciclo para atravessar sozinhas e muitas vezes é preciso encarar perdas e enfrentar rupturas compreendendo que é uma re-orientação, um re-posicionamento interno, um esforço de vontade e disciplina, que pode ser vivido como uma grande libertação de responsabilidades sociais e familiares, um abandono dos medos e das expectativas de aceitação dos demais.

Trata-se de um espaço para saber quem somos, o que desejamos e como queremos continuar de aqui para frente soltando cargas pesadas que não nos pertencem.

È um tempo de EPM nas palavras da Margaret Mead entusiasmo pos-menopáusico pela vida que escolhemos.

E para finalizar com o texto inicial:

“A aquarela da vida e ninho repouso sem tédio, sem amargura, sem aflição... no labirinto da vida encontrei outra dimensão. Hoje sou fada, mas tenho o conhecimento ancestral das bruxas...

Sei fazer a própria fogueira e enxergar outros seres nas faíscas crepitantes do entardecer...”

Marisa Sanabria
Psicóloga, Mestre em Filosofia
Especialista no tema da Mulher.
DVD- “A Travessia – Reflexões sobre a Menopausa”